


(Colonizao, Escravido e Independncia)

Introduo


O Continente africano limita-se ao Norte pelo Mar Mediterrneo, ao Oeste pelo Oceano Atlntico e ao Leste pelo Oceano ndico. De uma maneira simplificada podemos
dividi-lo em duas zonas absolutamente distintas: o centro-norte  dominado pelo imenso deserto do Saara (8.600.000 de km2), enquanto que o centro-sul, depois de
percorrer-se as savanas,  ocupado pela floresta tropical africana.

Esta separao geogrfica tambm refletiu-se numa separao racial. No Norte do continente habitam os rabes, os egpcios, os berberes e os tuaregues (sendo que 
esse dois ltimos so os que praticam o comrcio transaarino). No centro-sul, ao contrrio, habitam mais de 800 etnias negras africanas. Atribui-se ao atraso da 
frica meridional ao isolamento geogrfico que a populao negra encontrou-se atravs dos sculos. Afastada do Mediterrneo - grande centro cultural da Antigidade 
- pelo deserto do Saara, e longe dos demais continentes pela dimenso colossal dos dois oceanos, o Atlntico e o ndico. Apartados do resto do mundo, os africanos 
se viram vtimas de expedies forneas que lhes devoravam os filhos ao longo da histria.

Mesmo antes da chegada dos traficantes de escravos europeus, os rabes j praticavam o comrcio negreiro, transportando escravos para a Arbia e para os mercados 
do Mediterrneo oriental, para satisfazer as exigncias dos sultes e dos xeques. As guerras tribais africanas, por sua vez, favoreciam esse tipo de comrcio, visto 
que a tribo derrotada era vendida aos mercadores. 







A luta pela abolio da escravatura

Um dos captulos mais apaixonantes, polmicos e gloriosos, da histria moderna foi o que conduziu  abolio do trafico negreiro e a total supresso da escravido 
no transcorrer do sculo 19. A primeira reao contra a escravido ocorreu no sculo 18, partindo de uma seita protestante radical, os Quakers. Eles consideravam-na 
um pecado e no podiam admitir que um cristo tirasse proveito dela. Enviaram, em 1768, ao parlamento de Londres uma solicitao pedindo o fim do trfico de escravos. 
Pouco depois, John Wesley, o fundador do movimento metodista, pregou contra a escravido (Thoughts upon Slavery, 1774) afirmando que preferia ver a ndias Ocidentais 
(como eram denominadas as colnias antilhanas inglesas) naufragarem do que manter um sistema que violava a justia, a misericrdia, a verdade.

Economistas ilustrados tambm entraram na luta. Tanto os Fisiocratas franceses como Adam Smith, o pai do capitalismo moderno, (in Wealth os the Nations, 1776) afirmaram 
que a escravido era deficitria na medida que empregava uma enorme quantidade de capital humano que produzia muito aqum daquele gerado por homens livres. Viam-na 
como parte de um sistema de monoplio e privilgio especial, onde um homem desprovido de liberdade no tinha nenhuma oportunidade de garantir a propriedade do que 
quer que fosse e que seu interesse em trabalhar era o mnimo possvel. Assim a escravido s podia sobreviver pela violncia sistemtica do amo sobre o cativo. Anterior 
a ele, nas colnias americanas, Benjamin Franklin foi o primeiro homem moderno a submeter a instituio da escravido a uma analise contbil, concluindo tambm que 
um escravo era muito mais caro do que um trabalhador livre (The Papers of B.Franklin, 1751). Alexis de Tocqueville, o grande pensador liberal francs, que visitou 
os Estados Unidos, deixou pginas memorveis no seu A Democracia na Amrica, de 1835, ao fazer a comparao entre os estados escravistas (povoados por brancos indolentes 
e negros pauprrimos) e aqueles que mantinham o trabalho livre, ativos e industriosos.

No plano filosfico ela foi repudiada na obra de Montesquieu (Lesprit de les Lois, livro. XV,1748), onde afirmou que a escravido, por sua natureza, no  boa: 
no  til nem ao senhor nem ao escravo: a este porque nada pode fazer de forma virtuosa; aquele porque contrai dos seus escravos toda a sorte de maus hbitos... 
porque se torna orgulhos, irritvel, duro, colrico, voluptuoso e cruel. (...) os escravos so contra o espirito da constituio, s servem para dar aos cidados 
um poder e um luxo que no devem ter.

Mais radical do que ele foi o pensamento de J.J. Rousseau (in Le Contrat Social, 1762) para quem os homens haviam nascido livres e iguais e que a renuncia da liberdade 
eqivalia a renncia da vida. Como a escravido repousava sempre a fora bruta ...os escravos no tinham nenhuma obrigao ou dever para com os seus amos.

Apesar de Condorcet lamentar que s uns poucos filsofos atreveram-se de vez enquanto a soltar um grito a favor da humanidade, a soma das presses religiosas, 
econmicas, filosficas e morais comearam a surtir efeito. O Sculo das Luzes, como o sculo 18 foi chamado, terminou por condenar a escravido como atentatria 
 dignidade do homem, A Revoluo Francesa de 1789 aboliu com a escravido nas colnias francesas por acredit-la incompatvel com a Declarao dos Direitos do Homem 
e do Cidado. Napoleo, porm, mais tarde, restaurou-a. Mas em 1848 ela foi finalmente reafirmada.

Na Inglaterra o abolicionismo encontrou respaldo num grupo militante chamado de Os Santos (The Saints), que organizaram, em 1787, sob liderana de William Wilberforce, 
a Sociedade anti-escravista (Anti-slavery Society). Graas as suas batalhas parlamentares contra os interesses escravistas das cidades porturias de Liverpool e 
Bristol, Wilberforce conseguiu fazer aprovar a lei de 1807 que proibia o trfico negreiro.

Depois de uma srie de leis intermedirias, a abolio completa da escravido nas colnias ingleses ocorreu em agosto de 1834 (Slavery Abolition Act) que libertou 
776 mil homens, mulheres e crianas. Nesse nterim a Inglaterra havia declarado guerra aberta ao trfico. Nenhum barco negreiro poderia mais singrar os oceanos sem 
ser vistoriado (Aberdeen Act). Se fosse capturado os escravos deveriam ser devolvidos. Por presso inglesa, o Brasil finalmente concordou em abolir com o trfico 
pela Lei Eusbio de Queirs, em 1850. Mesmo assim continuou recebendo, em desembarques clandestinos, braos contrabandeados, o que gerou srios atritos com a marinha 
inglesa.

Na verdade, a razo material primeira da abolio foi a emergncia da sociedade industrial, surgida pelos efeitos scio-econmicos provocados pela introduo da 
mquina a vapor no processo produtivo.. Essa sociedade, que se expanda a partir do sculo 18, produzia mercadorias em srie para consumo em massa. Uma comunidade 
de escravos no consome pois no ganha salrios. Houve ento um conflito estrutural e ideolgico entre a crescente e poderosa sociedade industrial, que requeria 
mercados livres e trabalho assalariado, com a poltica mercantilista de mercados cativos e mo-de-obra escrava.(*)

(*) Esta abordagem, que afirma ser a escravido anti-econmica sob prisma moderno, continua gerando polmica. Historiadores econmicos conservadores norte-americanos, 
como R.W.Fogel, insistem em afirmar que a escravido no era incompatvel com a industrializao. Apresentando uma srie de abordagens pontuais demonstrando a prosperidade 
de certos setores industrias sulistas. 




l INTRODUO 
Neste trabalho, procurou-se abordar a questo do Brasil colnia, de uma maneira mais crtica, fugindo um pouco do que sempre foi divulgado e imposto, pela historiografia 
tradicional. 
Atravs de consultas  vrias fontes escritas, de autores variados, procuramos abordar as











 resistncia dos negros  escravido, o domnio espanhol, o surgimento da arte no Brasil, o bandeirismo, o ciclo do ouro, as revoltas e movimentos nativistas, e 
o surgimento do estilo barroco. 
2AS NAVEGAOES 
A formao de Portugal est ligada s lutas de reconquista da Pennsula Ibrica, tais lutas ocorreram dentro das caractersticas do feudalismo. A dinastia de Avis 
que foi o auge de D. Joo no poder, representou a vitria de um comeo do nacionalismo, subiu ao trono para reinar dois sculos 1385-1580. 
O Grupo Mercantil, embora no tivesse fora para mudar a sociedade portuguesa na poca de Avis, conseguiu, temporariamente competir com a nobreza ento titulada. 
Entre os fatores que possibilitaram tal competio, destacam-se: a situao geogrfica de Portugal. A guerra contra os mouros obrigava o governo a contrair emprstimo, 
sendo posteriormente pagos atravs de arrecadao de impostos. 
Verificou-se que o pas no contava com uma slida estrutura capitalista mercantil que permitisse enfrentar os novos concorrentes que tinham aparecido: holandeses, 
franceses e ingleses. 
Portugal  um pas voltado para o mar, o sal e a pesca, j constituem riquezas bsicas. Isso tambm possibilitou as descobertas tcnicas: bssola, astrolbio, caravela. 
Movidos pelo desejo de acabar com o monoplio italiano, os portugueses comearam com a ocupao de - Ceuta, Cabo da Boa Esperana, e a tentativa de descoberta do 
caminho para as ndias. A Espanha, incentivada pela expulso dos Mouros, 
 e com a descoberta de Colombo (Amrica em 1492), aceitava o projeto (da busca do caminho alternativo para as ndias). 
O Tratado de Tordesilhas (1494), acabou determinando que o Brasil, ou pelo menos boa parte dele, pertencesse a Portugal. 
A "descoberta" oficial ocorreu em 1500. Porm segundo alguns historiadores, na ocasio do Tratado de Tordesilhas, j existia uma razovel certeza quanto a existncia 
de terras a Ocidente. 
Descoberta ou acidente? Rejeitando-se tais hipteses, qual seria a inteno da expedio de Cabral? 
A colonizao veio como conseqncia do descobrimento, no tendo sido esta finalidade. 
3 A FASE PR- COLONIZADORA 
Durante, trs sculos, o brasil ficou na condio de colnia portuguesa. O colonialismo beneficiava a Metrpole. Havia uma grande dependncia da colnia em relao 
 metrpole, pois aquela importava a cultura e os comportamentos da Metrpole. 
No Brasil daqueles anos no se pode falar em dominao. Inicialmente, o Brasil foi um desafio, pois no havia riquezas para Portugal explorar, o interesse era garantir 
o controle da rota Atlntica. 
O direito de explorar as terras foi concedido a particulares mediante obrigaes, mas considerando o Monoplio da Coroa. 
Nos primeiros tempos, os franceses mantinham bom relacionamento com os ndios, somente por volta de 1530, Portugal passou a se interessar mais pelo Brasil. 
O Brasil foi o bero da "democracia racial". Se uma raa preponderou , preponderam tambm seus costumes. Os negros e ndios foram submetidos a violncia fsica 
e cultural, o ndio perdeu suas terras, o negro foi transferido brutalmente de ambiente. 
4 OS PRIMEIROS ESTAGIOS DA ADMINISTRAAO COLONIAL. 
Para possibilitar uma melhor administrao, Brasil foi dividido em Capitanias Hereditrias. Estas capitanias, criadas por D. Joo III, enfrentaram vrios problemas. 
Em 1549, foi nomeado o primeiro governador geral do Brasil, criado para coordenao das capitanias. Passaram a existir as capitanias reais. 
O Governo Geral pode ser definido como primeiro esboo do poder pblico no Brasil. O Marqus de Pombal, sabendo da carncia de gente para administrar a colnia, 
se valeu de brasileiros. O centralismo poltico j tinha ultrapassado a fase de experincias para se tornar um projeto mais amplo. Os primeiros Governadores Gerais 
foram encarregados de tarefas administrativas e militares por um prazo de 3 anos. Os primeiros marcos da tarefa colonizadora : Tom de Souza, Duarte da Costa e 
Mem de S . 
A distino entre governadores e os vice-reis: O vice-rei, muito mais que um governador geral, parecia a prpria personificao do poder. 
5 ACAR: A TAREFA SECULAR 
 
A base da colonizao foi o acar, riqueza trazida de fora, onde, Portugal j tinha experincia com plantio e a comercializao do produto nas Ilhas Atlnticas. 
Havia o predomnio do latifndio, tpico de economia aucareira. Gerava altos lucros, ocorria a no-diversificao de atividades e a monocultura . 
A mais significativa atividade propiciada pelo acar foi a criao de gado, para a qual utilizava-se o brao indgena e seu descendente mestio. 
A cana-de-acar, exigiu muita mo-de-obra, a soluo inicial foi a escravido indgena, porm, o ndio se mostrou um "mau trabalhador". 
At os jesutas acabaram se opondo escravido dos indgenas. Portugal precisou ento, do brao africano. 
Os negros vinham nos navios "negreiros", tambm chamados de "tumbeiros", dada a quantidade de pessoas que morriam durante a travessia do atlntico, devido s ms 
condies de higiene, fome, sede, doenas, e superlotao dos pores dos navios. 
J na colnia, submetidos a um duro trabalho, o negro quilombo (fujo), era o mais sofrido, era submetido  novena ou trezena (nove, ou treze chibatadas). Outros 
tipos de punies a que estavam sujeitos ainda, eram o tronco, viramundo, cepo, bacalhau (relho de cinco pontas), o mais comum. 
As classes de negros no eram iguais. Havia uma certa distino entre escravos domsticos, escravos de ganho, e os escravos de eito, estes, submetidos a um trabalho 
mais rduo, nos canaviais. Os escravos no formavam um todo homogneo, os crioulos no gostavam dos recm-chegados da frica, os mulatos (em especial os que assumiam 
funes remuneradas: feitores, mestres-de-acar, etc.), desprezavam os escravos em geral, os escravos urbanos viam com certa superioridade os escravos agrrios 
e, as vezes at ajudavam na luta contra os quilombos. Os ladinos se julgavam melhores que os boais . Afora isso, haviam ainda as diferenas culturais, os negros 
islamizados (fula, mandinga e hauss), por exemplo, eram rebeldes, e no se misturavam aos companheiros de infortnio, mantendo-se isolados. 
"O negro foi a base do sistema colonial do Brasil. Mais do que ps e mos do engenho, foi ps e mos do Brasil." 
A condio servil no estimulava ningum a produzir, o negro mostrou por todos os meios o quanto aquela situao no lhe servia. Reagiu sempre que, e como pde, 
fugindo, assassinando e rebelando-se. 
6 PALMARES 
 
Foi em Alagoas, na serra da Barriga, que se formou Palmares, o quilombo mais famoso, em fins do sculo XVI, incio do sculo XVII, por volta de 1600. Palmares congregou 
vrias aldeias, chegou a agrupar 20.000 pessoas, em 27.000km2, incluindo ndios, mulatos e at mulheres brancas (capturadas em incurses), atraiu tambm muitos marginalizados. 
Sua capital, o mocambo dos macacos, agrupou aproximadamente 5.000 pessoas, incluindo o Rei do Quilombo, Zumbi dos Palmares. Nesta poca, a busca pela liberdade, 
a fuga pelas matas impenetrveis, e a no aceitao da condio servil, caracterizou o primeiro passo para a formao dos quilombos. Sua estrutura poltica era de 
"monarquia desptica" e centralizada de forma eletiva, visto o perigo da diversidade cultural existente nos quilombos. Seus reis foram respectivamente, Ganga Zumba, 
e Zumbi. 
A formao de quilombos, foi uma atitude prspera que muito atraiu os que no aceitavam o carter antiprodutivo latifundirio. Devido  diversidade cultural, quanto 
 lngua, adotaram-se heranas lusitanas, os costumes africanos tiveram a sua continuidade, naquilo que no influenciaria a administrao do quilombo. No aspecto 
econmico, Palmares evoluiu da coleta e do ataque  fazenda e aldeias, para uma economia de base coletivista e no-monetria. 
A invaso holandesa a Pernambuco (1630-1654), acelerou as fugas de escravos pelo "afrouxamento geral", no controle sobre estes. 
A introduo holandesa de novas tcnicas de tortura (muito desumanas), gerou ainda mais revolta entre os negros. Os holandeses opuseram-se ao quilombo, mas foram 
rechaados ferozmente por duas vezes, expulsos os holandeses, os portugueses retomaram a luta anti-Palmares. Os lusitanos viam Palmares no s como "algo fora do 
comum", mas tambm como um "caso de polcia", queriam reaver sua propriedade (os negros), e coloca-los novamente nas lavouras. Os lusos depararam-se com uma eficaz 
ttica de guerrilha, que, de defensiva, passou a ofensiva. A primeira tentativa de tomar Palmares, por parte de Ferno de Carrilho, fracassou. Alm da busca de mo-de-obra, 
a terra ali, era vista pelos portugueses como extremamente frtil para a agricultura aucareira. 
Em 1678, os luso-brasileiros, fizeram um acordo com os quilombolas, e reconheceram o direito dos Palmares. Revoltados com o acordo, os palmarinos mataram Ganga Zumba, 
e firmaram o famoso Zumbi, no comando do quilombo. 
Destruir Palmares, para os lusitanos, era "imperativo poltico e obrigao da coroa", era impossvel um quisto daqueles, visto um nordeste latifundirio e aristocrtico 
Em 1687, Domingos Jorge Velho, assume a direo da campanha contra Palmares. O quilombo passa de uma ttica guerrilheira mvel, para uma defesa fixa, o que apressou 
o seu fim. A distncia entre negros e homens livres (estes mesmo pobres e oprimidos), foi grande fator para a derrota. Os escravos se viram compelidos a levar sozinhos 
uma luta, que, em caso de resultado positivo, favoreceria tambm a outra classe dominada. Aps prolongada luta, em 06 de fevereiro de 1694, Palmares  destruda, 
o rei Zumbi escapa e continua a existncia de outros quilombos. Em 1695, Zumbi foi morto e teve sua cabea espetada num poste na praa do Recife para mostrar aos 
escravos que ele no era imortal. 
7 O DOMNIO ESPANHOL 
Em 1580, com o objetivo de unificar a Pennsula Ibrica, Felipe II, rei da Espanha, incorpora pacificamente o reino Portugus, tornando-se o mais poderoso monarca 
europeu. Felipe II era um campeo do reacionarismo catlico-feudal. Era apoiado pelo clero portugus, que queria preservar seus privilgios. O seu reinado era legtimo, 
e perfeitamente dentro dos conceitos. A Europa aceitava dentro das teorias polticas feudais, a presena de outros reis, formando (pelo grau de parentesco), uma 
"grande famlia". 
O conceito de "domnio espanhol",  um tanto errado, pois apenas, o rei da Espanha, passou a ser o mesmo de Portugal, as naes se mantiveram separadas havendo apenas 
um vice-rei em Lisboa. 
As principal conseqncia da unio ibrica, para o Brasil, foi o incentivo  penetrao pelo interior, pois o Tratado de Tordesilhas, que dividia terras entre Portugal 
e Espanha, foi suspenso, favorecendo a expanso da pecuria, e as necessidades do bandeirismo. Gerou tambm novas e intensas incurses europias, baseadas nos conflitos 
entre Espanha e o resto da Europa. A unio dinstica durou de 1580 a 1640, quando a aristocracia lusa rumou a uma tirania, e com o apoio francs, independizou Portugal, 
com a implantao da nova dinastia: a de Bragana, sustentada at a proclamao da Repblica em 1910. 
Interessados na colnia, os franceses, tentaram apoderar-se do Maranho, onde poderiam intervir no Caribe, por onde passavam navios espanhis carregados de metais 
preciosos. Chefiados por Daniel de La Touche, fundaram a cidade de So Lus, e queriam fundar a Frana Equinocial. O fracasso francs, deu incio  colonizao do 
Maranho, e sua transformao em colnia separada do Brasil. Era o estado do Maranho, com seis capitanias, sendo hoje as atuais reas do Par e Amazonas. 
As invases holandesas foram ocasionadas pelo conflito entre o capitalismo comercial batavo em expanso, e a monarquia espanhola aristocrtica e monopolista. O nacionalismo 
holands, tornou-se vitorioso contra a tirania espanhola nos pases baixos, aliada pelo catolicismo romano, vivendo o Conclio de Trento, e a Inquisio. Contra 
isso, Felipe II rompeu ligaes luso-brasileiras com a Holanda. Assim criou-se a Companhia do Comrcio (holandesa), que invadiu a zona canavieira da colnia. Para 
o Brasil, tal atitude foi em termos, um contato com o capitalismo e sua ocupao deu-se para fins de poltica e economia. 
Tendo fracassado a invaso  Bahia, os holandeses rumaram  Pernambuco, e seu sucesso inicial, em termos, deve-se a Calabar (figura contestada, que teria auxiliado 
os holandeses na terra desconhecida). Mas a invaso teve como maior responsvel, Maurcio de Nassau, hbil poltico de financiamentos e reconstrutor de engenhos, 
agradando aos latifundirios. Nassau, com seu carter inovador, criou uma sociedade europia, urbana, burguesa, e calvinista. 
O fim do governo Nassau, e as cobranas aos latifundirios, foi o sinal para a ruptura. Os senhores, ameaados de perderem as terras arrendadas, expulsaram os holandeses, 
caracterizando a insurreio pernambucana, que no passou de uma luta entre classes dominantes (latifundirios devedores X comerciantes credores). Aps a expulso 
dos holandeses, o acar entra em declnio, pela perda do monoplio. A segunda metade do sculo XVII, foi tempo de crise. Passa-se a estimular o bandeirismo para 
a busca do ouro nas Minas Gerais, que marcaria a segunda fase da colonizao. 
8 PRIMRDIOS DA ARTE NO BRASIL 
A cultura brasileira no foi aquela erudita, das tradies e convices ocidentais, era a "cultura espria", produzia coisas de valor. 
As elites prestaram-se historicamente s exigncias coloniais. Porm um pas sem matizes nacionais vlidas, que apresentara uma condio submissa na sua poltica 
e economia, tambm no condicionaria a produo de cultura. A colnia dependia de outras estruturas econmicas, a elite funcionava como um elo de ligao entre o 
colonizador, e o colonizado, sua cultura formou-se basicamente, a partir dos princpios religiosos ocidentais. 
No sculo XVI foram as construes de taipa de pilo, no sculo XVII, o Barroco com suas voltagens religiosas, manifestou-se atravs de duas escolas, a Benedita 
e a Franciscana. A "misso holandesa", deixou expressivas desenvolturas culturais: como a pintura e a admirao s belezas e paisagens litorneas. 
8.1 A QUESTO DO BARROCO BRASILEIRO 
Era um trabalho artstico, executado por gente da terra, mestios, com matria-prima local. A arte sacra era o mercado de trabalho, e era sinnimo de pompa e riqueza. 
O barroco era o estilo das formas dramticas, grandiosas e opulentas, voltadas  decorao. Exprimiu as incertezas de uma poca que oscilava entre velhos e novos 
valores. Era o 
marketing da contra reforma, com toda grandeza artstica extasiando e arrebatando fiis  Igreja Catlica. 
Seus artistas eram vistos como meros oficiais mecnicos especializados, pois no sculo XVIII, especialmente em Minas Gerais, eram muitos. 
Eram tarefas mais livres, frutificando o aumento de artistas como: arquitetos, escultores, pintores e entalhadores. 
Para a metrpole, no interessava uma valorizao da arte, pois estas poderiam minar as bases da dominao colonial. 
9 O BANDEIRISMO 
A questo do bandeirismo, evidencia as dificuldades das comunidades afastadas do centro exportador dominante, o nordeste aucareiro. Os paulistas viram-se compelidos 
a buscar meios de enriquecimento. Disto resultaram as bandeiras - empresas mveis, misto de aventureirismo pico, e oportunismo empresarial. 
As bandeiras representaram um importante fator na configurao das fronteiras, pois dirigiram-se rumo s reas desabitadas do interior, pelas quais os espanhis 
no haviam se interessado, voltados como estavam para a minerao andina. 
Devido  carncia de recursos da terra  qual no tinham por que se prender, os paulistas dos primrdios acabaram por favorecer o surgimento de uma ideologia que 
muito ajudaria a classe dominante regional do futuro, a ideologia da iniciativa privada. 
S. Paulo se colocou na vanguarda econmica e poltica da nao, essa ideologia muito serviu  classe dominante regional como instrumento do federalismo. 
Devido ao aspecto do pioneirismo desbravador, o primitivo isolamento da comunidade paulista, contribuiu para a formao de uma mentalidade regionalista fortemente 
arraigada, cujo resultado ltimo e extremo, veio a ser a Rev. Const. De 1932. 
Na primeira grande fase do bandeirismo, o objetivo era aprisionar ndios para vende-los como escravos em lugares que no usavam o negro por ser muito caro, era 
o nico bom negcio possvel aos paulistas. Tal negcio foi facilitado pois, devido  unio Ibrica, o Tratado de Tordesilhas no estava em vigor, isto foi uma das 
causas da destruio do primeiro ciclo missioneiro no sul da colnia. 
As bandeiras tiveram seu auge durante a ocupao de Angola pelos holandeses, pois foi interrompido o trfego negreiro, e a mo-de-obra escrava escasseou ainda mais, 
gerando um aumento nos preos dos escravos. O seu declnio foi por ocasio da expulso dos holandeses da costa africana, ao mesmo tempo em que os ndios aldeados 
nas misses sulinas, comearam a reagir aos ataques dos bandeirantes. Aps dois contra-ataques bem sucedidos, por parte dos ndios, principalmente o "combate do 
Mboror", os bandeirantes interromperam seus assdios s misses. 
Segundo alguns autores, a palavra bandeira, talvez derive de "bando" (reunio de bandos). Possua uma certa organizao. Apesar de submetida a uma autoridade absoluta, 
era muito heterognea. Cassiano Ricardo  definiu como "cidade que caminha", devido  sua diversificao social. 
A alimentao dessas hordas, consistia principalmente de caa, pesca, coleta, e eventuais roas de milho (bivaques). As expedies duravam anos, e eventualmente 
havia quem as financiasse, o que refora a idia da combinao do esprito aventureiro, com o esprito empresarial, impregnado do desejo de lucro. 
Quando o acar deixou de dar lucros, a Coroa resolveu encontrar metais preciosos. Houve a contratao de tcnicos espanhis pelo governo portugus, para ensinar 
aos os bandeirantes, as tcnicas de minerao, e as bandeiras passaram a se dedicar  busca de pedras e minerais preciosos, tornado-se uma empresa quase estatal, 
ao final do sculo XVII. 
10 A MINERAO 
O ciclo do ouro se constituiu um dos episdios bsicos da histria brasileira do sc XVIII. Favoreceu o povoamento do interior, deslocou o eixo histrico colonial 
do nordeste para o centro-sul. Surgiu um novo tipo de sociedade (mais flexvel que a do acar). 
Tambm surgiram novas cidades como: Ouro Preto, Sabar, Mariana, So Joo dEl Rey, etc., bem como a criao de novas capitanias (Minas Gerais, Gois, Mato Grosso). 
O ouro era monoplio real, a explorao era feita atravs do arrendamento de lotes ou "datas de minas", que eram sorteadas aos particulares. Seu tamanho variava 
conforme o nmero de escravos do candidato contemplado. Este tinha um prazo para iniciar a extrao, no podia negociar a data recebida, exceto se provasse ter perdido 
todos os seus escravos. Em caso de repetio da alienao de uma data, o responsvel ficava proibido de novamente candidatar-se e receber outra. 
Inicialmente a minerao era superficial, e restringia-se ao leito dos rios. A minerao em profundidade teve incio no sc. XIX, com a vinda para o Brasil da St 
John dEl Rey Minning Co. (inglesa) Hanna Corp. (americana), esta ltima, um conglomerado 
norte-americano, dedicou-se  extrao de minrio de ferro no atual estado de MG, j no sc XX. 
A explorao do ouro no sc XVIII, se dava de duas maneiras: lavras (organizada, empresarial), ou pelos faiscadores (iniciativa privada) e ex-escravos que exerciam 
pequenos ofcios nas cidades. 
O ciclo do ouro possibilitou surgimento de grupos intermedirios entre a classe rica, e a classe pobre (classe mercantil). Pois o ouro exigia menor investimento 
do que o acar. Outra classe tambm surgiu, a dos funcionrios pblicos para cobrar impostos, e coibir o contrabando 
O contrabando foi a principal causa de Portugal desestimular a vinda de gado do NE, pelo vale do S. Francisco, o que incentivou a atividade pecuria no extremo sul, 
necessria para abastecer a regio mineradora. 
Entre outras conseqncias do ciclo do ouro, tivemos tambm a mudana da capital de Salvador para o rio de Janeiro (1763). O incentivo  poltica centralizadora, 
os Bragana (Reis D. Joo V e D. Jos I, tornaram-se financeiramente independentes das cortes graas aos impostos cobrados no Brasil na poca faustosa (quinto) e 
mesmo na decadente (derrama) da minerao. 
No plano das relaes internacionais, havia uma forte dependncia de Portugal em relao  Inglaterra (1703 - Tratado de Comrcio e Amizade - de Methuen - nome 
do diplomata ingls que o obteve). A Inglaterra se encarregou da sustentao militar e diplomtica da frgil nao lusa numa Europa conflagrada pela guerra de sucesso 
da Espanha, em troca da abertura dos portos lusitanos aos artigos manufaturados britnicos. Neste tratado, a nica vantagem para Portugal eram os privilgios alfandegrios 
para o vinho (at 1786). 
Os resultados do Tratado de Methuen no foram positivos para os lusos. O abastecimento de Portugal e do Brasil com produtos britnicos acarretou um dficit crescente 
de Lisboa em relao  Londres. Portugal se tornou colnia comercial da Inglaterra, e ainda perdeu em 1786, as vantagens que possua de colocao de seus vinhos 
no mercado britnico. 
O ouro brasileiro que foi entregue aos cofres portugueses, l ficou, isto , no foi utilizado para pagar os dficits lusitanos, serviu para estimular os gastos 
sunturios da monarquia. 
11 O NATIVISMO 
O sc XVIII, alm da minerao, tambm foi marcado pelos diversos sintomas de descontentamento em relao  poltica metropolitana, os "movimentos nativistas", no 
se deve no entanto levar este termo ao p da letra, visto que os primeiros movimentos visavam corrigir injustias exatamente apelando ao poder absoluto do rei. 
 Revolta no Maranho (Manuel Beckmann) - Contra a oposio jesutica  escravizao indgena, e contra o monoplio extorsivo de uma Cia de Comrcio, (A Revolta 
de Beckmann) 
 Guerra dos Emboabas (S. Paulo, incio do sc XVIII (1707) - Paulistas x forasteiros (baianos e portugueses), devido  concorrncia na procura do ouro 
 Guerra dos mascates (1710) - Latifundirios devedores de Olinda x credores de Recife, de origem portuguesa. 
 Revolta de Filipe dos Santos (Ouro Preto, ou vila Rica - 1720) - Organizado pelos mineradores contra a instituio do quinto e das casas de fundio para cobr-lo, 
impedindo assim, a sonegao e o contrabando. Nenhuma teve objetivos amplos, foram manifestaes de cunho imediatista e regional, sem projetos polticos consistentes. 
Manuel Beckmann lutou pelos interesses dos 
colonos do Maranho, acreditando que a soluo s poderia vir de Sua Majestade. A Guerra dos Emboabas no passou de disputa interesseira entre paulistas bandeirantes, 
e forasteiros vidos em lucrar com um negcio para cuja descoberta no tinham concorrido. A Guerra dos Mascates foi um conflito entre classes dominantes da regio 
pernambucana, a agrria e a mercantil. A rebelio de Filipe dos Santos, foi em prol de uma causa que no pode encontrar defensores - a causa do contrabando e da 
sonegao em favor de benefcios individuais. 
Estas vrias revoltas no perodo do Brasil colnia, apenas espelham as diferenas entre as vrias partes do Brasil e a regionalizao social e cultural subjacente 
 unidade poltica e administrativa imposta pela Coroa portuguesa. Todavia, mostram, de um modo desordenado, a existncia de contradies e descontentamentos locais 
forjados no correr da existncia colonial. 
12 A DECADNCIA ECONMICA DE PORTUGAL 
A decadncia do colonialismo foi acompanhada de um crescente enrijecimento administrativo e poltico. Portugal desenvolveu ao mximo a idia de que a colnia s 
servia para enriquecer a metrpole. O Brasil s podia vender para Portugal, e comprar de Portugal, a preos fixados por este, alm disso, no podia produzir nada 
que Portugal pudesse produzir e/ou vender para o Brasil, como aguardente, sal, manufaturas. Em 1785, a Rainha D. Maria I, assinou o famoso alvar que leva o seu 
nome, proibindo as manufaturas no Brasil, afim de no desperdiar os esforos que deveriam se concentrar na agricultura 
O fisco tornou-se opressivo ao extremo, foi criada uma contribuio "voluntria" para reconstruo de Lisboa, aps o terremoto de 1755, que continuou sendo cobrada 
at muito depois da cidade ficar pronta de novo. 
No era mais Portugal quem abastecia o Brasil, e sim a Inglaterra via Portugal, o qual se constituiu num intermedirio encarecedor. 
Terminar com o monoplio, tornou-se no sc XVIII, um ideal do capitalismo liberal que veio ao encontro dos interesses de duas classes sociais bastante distanciadas 
entre no espao, o latifundirio do Brasil, e o burgus da Inglaterra. 
O colonialismo mercantilista e monopolista entrou em crise quando as sociedades coloniais amadureceram, combateram impostos extorsivos e desejaram liberdade para 
comprar e vender, e o capitalismo em expanso no Velho Mundo reclamou a expanso dos mercados, opondo-se aos mercados fechados vigentes em defesa de seus negcios. 
O ciclo de rebelies reiniciou 69 anos aps o levante de Filipe dos Santos, com a Inconfidncia Mineira de 1789. Foi mal planejada, e nem teve chances de ser posta 
em prtica. Entretanto trouxe idias relativamente avanadas (Repblica, capital no interior, industrializao, universidade, etc) 
Estes ltimos movimentos de rebelio, tiveram significado mais profundo que os primeiros . Embora estritamente regionais, no h dvidas no que tange s intenes 
libertrias e republicanas ento desenvolvidas. Isso se deveu  influncia da independncia dos EUA, e da filosofia iluminista da Frana, cuja vertente mais elitista 
e burguesa foi absorvida pelos inconfidentes mineiros, e a mais democrtica e popular foi seguida pelos inconfidentes baianos. 
Estas revoltas integravam vrias classes sociais diferentes, cada qual com objetivos comuns em relao s outras, e especficos para si prprias. Ao comear o sc 
XIX, a independncia para o Brasil parecia, apesar das manifestaes j havidas, algo distante. Mas s parecia. As vrias classes sociais estavam descontentes, o 
monoplio comercial j no era aceito nem pela classe dominante colonial nem pelo capitalismo internacional em expanso. 
Pombal no visava romper com a Inglaterra, pois precisava do seu apoio nas disputas com a Espanha pela posse das fronteiras do sul, entretanto procuravam dar uma 
margem de autonomia  Portugal. segundo alguns historiadores, as medidas econmicas tomadas por Pombal, objetivaram fortalecer a burguesia portuguesa, e tambm a 
colnia, cujas defesas contra invasores polticos e 
econmicos eram dbeis. Sacrificava-se o arcaico monoplio em nome de uma poltica de empreendimentos capaz de trazer o progresso a uma nao estagnada. 
Portugal tinha carncia de quadros administrativos e burocrticos que atuassem no Brasil, Pombal no hesitou em se valer de elementos da elite colonial nas tarefas 
do poder. A plutocracia local comeou a se habituar ao exerccio do mando (quando no havia conflito de interesses com a metrpole). Pombal tratava o Brasil com 
cautela evitando conflitos com os magnatas locais. 
Por iniciativa de Pombal, a Real Fazenda afrouxou a vigilncia sobre as Juntas da Fazenda colonial e a derrama, imposto que era cobrado para perfazer o mnimo de 
100 arrobas estabelecido pelo quinto, foi suspensa, este "afrouxamento", possibilitou fortunas individuais e negcios escusos. 
O declnio da extrao do ouro, favoreceu o progresso industrial da colnia, reduzindo a possibilidade de financiar a importao de artigos ingleses, 80% dos estabelecimentos 
industriais criados na era pombalina, o foram depois de 1770. 
As colnias inglesas da Amrica do Norte fizeram sua independncia e, a idia de emancipao poltica foi adotada pela elite mineira como um meio de manter privilgios 
e autoridade adquiridos, e impedir que seus negcios fossem investigados. Aquilo que Portugal criara no Brasil, um grupo poltico para o representar, se voltava 
agora contra seu criador. 
Segundo alguns autores, no foi o idealismo que moveu os inconfidentes, mas sim, o temor de que a Coroa investigasse negcios duvidosos. Silvrio dos Reis traiu 
a inconfidncia visando conseguir a mesma coisa que o movera a entrar nela: livrar-se das dvidas que tinha para com a Fazenda Real. A denncia da conspirao levou 
 suspenso da derrama, cuja cobrana seria a bandeira de luta dos inconfidentes, e permitiria a eles ocultar seus interesses de classe sob a capa de uma causa do 
interesse da maioria. 
O movimento, mais imaginado nos resultados, do que efetivado na ao, nada tinha de concreto, exceto o desenho da bandeira, e a idia de usar o dia da cobrana da 
derrama para desencade-la. 
Numa evidncia de quo frgeis eram os elos que ligavam os inconfidentes, Cludio Manoel da costa acabou denunciando Toms Antnio Gonzaga. 
Em Portugal, a influncia pombalina retornava, embora Pombal j tivesse morrido (1782), por isso a coroa resolveu usar um certo comedimento ao julgar os implicados. 
Tiradentes no pertencia  plutocracia mineira, tratava-se de um indivduo que no conseguira subir na vida, tendo entrado na Inconfidncia com objetivos arrivistas. 
Execut-lo foi um meio de ridicularizar, o movimento, como se procurasse chamar a ateno para o baixo nvel dos que tinham participado da conjura. Dada  pouca 
relevncia social de Tiradentes, que reao poderia causar a sua morte? 
13 O EPLOGO DA FASE COLONIAL 
O ouro terminara a cana sofria a concorrncia do Caribe, o algodo do Maranho sofria a concorrncia do sul dos EUA, afora o ouro das Gerais, a cana do NE, e 
o algodo do MA, o Brasil tinha pouca coisa a oferecer. 
A Bahia importava o escravo da Guin, nico meio de escoar a produo de fumo, e importava o carssimo e indomvel escravo negro islamizado da Guin, capitania, 
pois era a nica moeda usada para adquirir especificamente aquele tipo de negro africano, sendo por isso, comprado pelos traficantes que o comerciavam. 
No mais, extraam-se as drogas da Amaznia (cravo, canela, castanha-do-par, cacau, urucum, salsaparilha, sementes, etc.), criava-se gado no serto nordestino, e 
no extremo sul, e praticava-se uma dbil agricultura de subsistncia junto aos latifndios monocultores.. 
No aspecto social, a concentrao de poder, riqueza, e o que existia de cultura, concentrava-se no litoral. Em geral a sociedade era agrria, latifundiria, patriarcal, 
catlica e escravista. S a minerao propiciou um certo desenvolvimento urbano e o surgimento de estratos intermedirios. 
O Brasil rstico disperso, e primitivo que havia no interior, era ignorado pela sociedade concentrada no litoral. 
14 A ERA DO BARROCO 
No sc XVIII, ocorreu a plena maturao do Barroco brasileiro, especialmente no NE (BA e PE), e na zona decadente da cana (RJ e MG). Havia uma diferena marcante 
entre o barroco do litoral, e o barroco de Minas Gerais. No estilo adotado no litoral, havia um forte contraste entre a simplicidade do exterior, e a opulncia interna, 
bem como, as sacristias tinham muita importncia, e fazia-se um largo uso do azulejo. J nas Minas Gerais, ocorria o contrrio, o exterior era mais decorado, e o 
interior tinha uma ornamentao mais leve, havia menor importncia da sacristia, e o azulejo no era muito usado, em seu lugar adotava-se a tcnica conhecida como 
"fingimento", ou seja, fazia-se uma pintura imitando azulejos. 
As Ordens conventuais foram proibidas de entrar em Minas. Esta proibio se deu devido ao poder corruptor do ouro. Os conventos poderiam usar sua inviolabilidade 
para o contrabando de ouro, alm do que, temia-se que os monges estimulassem o no-pagamento dos impostos devidos. As igrejas foram erguidas por encomenda do clero 
secular ou de Ordens Terceiras, de feies menos rgidas e hierticas. Os artistas discutiam com as irmandades as plantas das igrejas que vinham de Portugal, e 
no raro as alteravam. Tinha-se uma arte mais nacional, com menor influncia europia. 
No sculo XVIII, tivemos grandes artistas mulatos. Na pintura destacaram-se o baiano Jos Joaquim da Rocha, bem como o mineiro Manoel da Costa Atade (Mestre Atade), 
autor da pintura de Nossa Senhora, e anjos, com traos mestios. 
Na escultura tivemos Valentim Fonseca e Silva (Mestre Valentim, RJ), Francisco das Chagas (o Cabra), e Antnio Francisco Lisboa (o Aleijadinho, MG) 
Arquiteto, escultor e decorador, Mestre Aleijadinho viveu de 1730 a 1814. Fez seu aprendizado em Minas, nunca deixou o Brasil. Acometido de uma doena que o deformou, 
a ela deveu o apelido. Segundo Mrio de Andrade, a obra do Aleijadinho divide-se em duas: a fase s de Ouro Preto e S. Joo dEl Rey, que se caracteriza pela serenidade 
equilibrada e pela clareza magistral, e a fase de Congonhas, onde desaparece aquele sentimento renascente da fase s e surge um sentimento muito mais gtico e expressionista. 
A deformao na fase s  de carter plstico. Na fase doente,  de carter expressivo. 
Na msica igualmente preponderou a figura do mulato. Houve uma pliade de compositores talentosos em MG, entre os quais avultaram os nomes de Marcos Coelho Neto, 
Igncio Parreiras Neves, Francisco Gomes da Rocha e, sobretudo, Lobo de Mesquita. Tal como nas artes plsticas, preponderou a figura do mulato, a atividade artstica 
era um meio de ascenso social daquela gente marcada pelo estigma da cor. 
Ao contrrio do que pode-se pensar, apesar da maioria dos msicos serem mulatos, no houve a adoo de ritmos negros na msica. A preocupao foi justamente evitar 
tudo que pudesse lembrar uma origem "desagradvel" e, por isso indesejvel. 
Jos Maurcio Nunes Garcia (1767-1830). Homem de grande talento, carioca, padre com seis filhos e uma imensa f transfigurada na mais sublime das artes. Por ser 
mulato, ficou padre, mais que a vocao, interessava a ele, certamente, uma posio social que, na poca, facilitava os que queriam estudar e careciam de recursos. 
Ser padre tornava seu trabalho mais simples: segundo a perspicaz observao de Bruno Kiefer, os pais entregavam-lhe as filhas para estudarem msica, sem maiores 
preocupaes ... 
Jos Maurcio chegou a ser o compositor oficial da corte de D. Joo VI. 
A partir do incio do sc XIX houve uma mudana histrica na arte brasileira, a arte sacra, cede lugar  arte profana. O Rio de Janeiro substitui. Minas Gerais, 
que substituiu o NE, como centro da arte brasileira, a partir de 1816, ocorre a implantao do estilo neoclssico pela Misso Artstica Francesa 
Este novo estilo partiu do princpio de que arte se aprende nas Academias, e no pelos ditames do sentimento. O neoclassicismo repudiou a herana colonial: era arte 
de autodidatas e, ainda por cima, mulatos... para o artista neoclssico, arte era produto de uma elite esclarecida e intelectualmente privilegiada. 
15 CONCLUSO 
A partir do exposto, conclui-se que a colonizao do nosso pas, foi essencialmente uma colonizao de explorao.  metrpole, s interessava servir-se dos recursos, 
e riquezas existentes na colnia. 
Num segundo momento, a classe dominante, j nascida no Brasil e, portanto, brasileiros, tambm no interesses em mudar a situao. Eram favorecidos e privilegiados 
pela coroa portuguesa, a ajudavam a manter a dominao sobre seus irmos brasileiros. 
Em todos os momentos, todos os povos de diferentes nacionalidades que aqui aportaram, tinham um nico objetivo, a explorao, o saque, e o aviltamento da cultura 
dos povos indgenas nativos desta terra. 
Desde a nossa infncia, sempre nos foi inculcada uma imagem herica dos nossos "bravos" bandeirantes, dos inconfidentes, dos navegadores portugueses, que "descobriram" 
nossa terra, e esforaram-se por trazer a civilizao, o progresso, e a f crist para os "selvagens, que andavam nus, e adoravam os demnios das florestas". 
 tempo de entendermos, que os nossos "heris" do passado, tem muito a ver com os nossos grandes personagens da classe dominante da atualidade, agem sempre visando 
o interesse econmico pessoal, ou de classes dominantes, com as quais esto comprometidos. 
"Modificam-se os meios, permanecem os objetivos". Na fase colonial, portugueses, franceses, holandeses, vinham com seus navios movidos  vela, at a colnia, e 
daqui saam carregados com ouro, pau-brasil, aguardente, sal, etc; no presente, os "grandes conquistadores" do FMI, vem  periferia com seus jatos, e daqui se retiram 
levando nossas reservas cambiais. 
Durante o jugo da metrpole, vinham governadores gerais e vice-reis, para gerenciar a colnia, na atualidade, somos "governados por brasileiros natos, s que as 
determinaes do que o governo tem de fazer ou deixar de fazer, dentro do pas, normalmente so ditadas pelo imperialismo capitalista estrangeiro. 
No seria tempo de, ao invs de reverenciarmos os "heris" da historiografia tradicional, admirarmos sim, o povo, os ndios que, embora tenham sido vencidos, jamais 
aceitaram a dominao, e resistiram de todas as formas que puderam? Os negros escravos que embora sob o jugo dos senhores e feitores, jamais se renderam? 
REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS 
 
AZANHA, Gilberto; VALADO, Virgnia Marcos. SENHORES DESTAS TERRAS. Os povos indgenas no Brasil: da colnia aos nossos dias. Editora Atual, 
LOPES, Luis Roberto. HISTRIA DO BRASIL COLONIAL. Porto Alegre: Mercado Aberto, 
MESGRAVIS, Laima. O Brasil nos primeiros sculos. So Paulo: Contexto, 1994. 


O Descobrimento
H cinco sculos, no incio de maro de 1500, partiu de Lisboa, a principal cidade do Reino portugus, uma expedio de treze navios. Ia em direo a Calicute, nas 
ndias. 
Era a maior e mais poderosa esquadra que saa de Portugal. Dela faziam parte mil e duzentos homens: famosos e experientes navegadores e marinheiros desconhecidos. 
Eram nobres e plebeus, mercadores e religiosos, degredados e grumetes. Parecia que todos os portugueses estavam nas embarcaes que enfrentariam, mais uma vez, o 
Mar Tenebroso, como era conhecido o Oceano Atlntico. 
A expedio dava prosseguimento s navegaes portuguesas. Uma aventura que, no sculo XV, distinguira Portugal, por mobilizar muitos homens, exigir inmeros conhecimentos 
tcnicos e requerer infindveis recursos financeiros. Homens, tcnicas e capitais em to grande quantidade que somente a Coroa, isto , o governo do Reino portugus, 
possua condies de reunir ou conseguir. Uma aventura que abria a possibilidade de obter riquezas: marfim, terras, cereais, produtos tintoriais, tecidos de luxo, 
especiarias e escravos. Uma aventura que tambm permitia a propagao da f crist, convertendo pagos e combatendo infiis. Uma aventura martima que atraa e, 
ao mesmo tempo, enchia de medo, tanto os que seguiam nos navios, quanto os que permaneciam em terra. 
O rei Dom Manuel I, que a seu nome acrescentara o ttulo de "O Venturoso", confiou o comando da esquadra a Pedro lvares Cabral, Alcaide - Mor de Azurara e Senhor 
de Belmonte. Dom Manuel esperava concluir tratados comerciais com o governante de Calicute, o samorim, para ter, com exclusividade, acesso aos produtos orientais. 
Sua inteno era, tambm, que fossem criadas condies favorveis  pregao da religio crist, por missionrios franciscanos. A misso da frota de Cabral reafirmava, 
assim, os dois sentidos orientadores da aventura das navegaes portuguesas: o mercantil e o religioso. 
E, ao que parece, Dom Manuel esperava ainda, com essa expedio, consolidar o monoplio do Reino sobre a Rota do Cabo, o caminho inteiramente martimo at as ndias, 
aberto por Vasco da Gama, em 1498. Era preciso garantir a posse daquelas terras do litoral atlntico da Amrica do Sul. Terras que, de direito, pertenciam a Portugal, 
desde a assinatura do Tratado de Tordesilhas, em 1494. 

Quarenta e cinco dias aps a partida, na tarde de 22 de abril de 1500, um grande monte "mui alto e redondo" foi avistado e, logo em seguida, "terra ch com grandes 
arvoredos", chamada de Ilha de Vera Cruz pelo Capito, conforme o relato do escrivo Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal. 
Em Vera Cruz os portugueses permaneceram alguns dias, entrando em contato com seus habitantes. Em 26 de abril, frei Henrique de Coimbra, o chefe dos franciscanos, 
celebrou uma missa observada, a distncia, por homens "pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos, andam nus, sem nenhuma cobertura, 
nem estimam nenhuma coisa cobrir, nem mostrar suas vergonhas, e esto acerca disso com tanta inocncia como tm em mostrar o rosto", na descrio de Caminha. 
Os portugueses no puderam com eles conversar, porque nem mesmo o judeu Gaspar - o intrprete da frota - conhecia a lngua que falavam. Neste momento de encontro, 
conhecido pelo nome de Descobrimento, a comunicao entre as culturas europia e amerndia tornou-se possvel, somente, por meio de gestos. Duas culturas apenas 
se tocavam, abrindo margem s interpretaes que ressaltavam as diferenas entre elas. Assim, quando um dos nativos "fitou o colar do Capito, e comeou a fazer 
acenos com a mo em direo  terra, e depois para o colar", Caminha concluiu que era "como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra". 
 

 
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A Sociedade Patriarcal
SOCIEDADE PATRIARCAL


A famlia era tudo, nada menos. Seguindo a tradio da poca em que os portugueses se instalaram no Brasil, a famlia no se compunha apenas de matido, mulher e 
filhos. Era um verdadeiro cl, induindo a esposa, eventuais (e disfaradas) concubinas, filhos, parentes, padrinhos, afilhados, amigos, dependentes e ex-escravos. 
Uma imensa legio de agregados submetidos  autoridade indiscutvel que emanava da temida e venerada figura do patriarca. Temida, porque possua o direito de controlar 
a vida e as propriedades de sua mulher e filhos; venerada, porque o patriarca encarnava, no corao e na mente de seus comandados, todas as virtudes e qualidades 
possveis a um ser humano.



"Era o patriarca de um grupo de famlias. (...) Era o Pai, o Sogro, o Av; mas, antes de tudo, o Amigo e o Conselheiro. Jamais algum ousou desrespeit-lo, no lar 
ou fora dele. (...) Encamava a sabedoria e ningum dele se aproximava sem que, de imediato, se sentisse envolvido pela confiana que irradiava de sua marcante personalidade". 
(Aroldo de Azevedo, referindo-se ao fazendeiro Igncio Cochrane.)
E quem era esse patriarca orgulhoso, a quem se submetiam tudo e todos? Era o grande senhor rural, proprietrio de terras incomensurveis, onde se plantavam as bases 
da economia brasileira: caf, cacau, cana-de-acar e outras grandes lavouras. Era ele que desde os tempos coloniais e imperiais presidia a nica ordem perfeita 
e ntegra da sociedade brasileira: a organizao
familiar. No havia comunidades slidas, sindicatos, clubes ou outros rgos que congregassem pessoas de interesses similares. A famlia, a grande famlia patriarcal, 
ocupava todos esses espaos. E o que no fosse provido por ela representava um corpo estranho e indesejvel. O prprio Estado, que enquanto ordem pblica deveria 
estar acima das questes familiares, esbarrava nestas quando necessitava intervir. Mas os governantes sabiam que essa famlia exclusivista, dobrada sobre si mesma 
e solidamente organizada, era, por sua vez, o sustentculo do Estado, pois impedia que a populao, to escassa e
quase nmade, se pulverizasse neste imenso pas.

A famflia patriarcal era, portanto, a espinha dorsal da sociedade e desempenhava os papis de procriao, administrao econmica e direo poltica. Na casa-grande, 
corao e crebro das poderosas fazendas, nasciam os numerosos filhos e netos do patriarca, traavam-se os destinos da fazenda e educavam-se os futuros dirigentes 
do pas. Cada um com seu papel, todos se moviam segundo intensa cooperao. A unidade da famlia devia ser preservad a todo custo, e, por isso, eram comuns os casamentos 
entre parentes. A fortuna do cl e suas propriedades se mantinham assim indivisveis sob a chefia do patriarca.



E a famlia patriarcal era o mundo do homem por excelncia. Crianas e mulheres no passavam de seres insignificantes e amedrontados, cuja maior aspirao eram as 
boas graas do patriarca. A situao de mando masculino era de tal natureza que os vares no reconheciam sequer a autoridade religiosa dos padres. Assistiam  missa, 
sem a menor manifestao daquela humildade crist do crente (prpria, alis, das mulheres), assumindo sempre ares de proprietrio da capela, protetor da religio, 
bom contribuinte da Igreja. Jamais um orgulhoso varo se dignaria de beijar as mos de um clrigo, como o faziam sua esposa e filhas. Nesse universo masculino, os 
filhos mais velhos tambm desfrutavam imensos privilgios, especialmente em relao a seus irmos. E os homens em geral dispunham de infinitas regalias, a comear 
pela dupla moral vigente, que lhes permitia aventuras com criadas e ex-escravas, desde que fosse guardada certa discrio, enquanto que s mulheres tudo era proibido, 
desde que no se destinasse  procriao.
Por mais enaltecido que fosse o papel de me, um obscuro destino esperava as mulheres. Uma senhora de elite, envolta numa aura de castidade e resignao, devia procriar 
e obedecer. Com os filhos mantinha poucos contatos, uma vez que os confiava aos cuidados de amas-de-leite, preceptoras e governantas. Sobravam-lhe as amenidades, 
as parcas leituras e a superviso dos trabalhos domsticos. At mesmo as linhas de parentesco, to caras  sociedade patriarcal, s se tomavam "efetivas" quando 
provinham do homem. Desse modo, a mulher perdia a consanginidade de sua prpria famlia de origem, para adotar a do esposo.

"A ptria  a famlia amplificada. E a famlia, divinamente constituda, tem por elementos orgnicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerena, o sacrifcio. 
 uma harmonia instintiva de vontades, uma desestudada permuta de abnegaes, um tecido vivente de almas entrelaadas. (...) Multiplicai a famlia, e tereis a ptria". 
(Ruy Barbosa)

At meados do sculo XIX, a casa-grande era o modelo perfeito do fechado mundo patriarcal. A reduzida elite das grandes cidades - comerciantes, profissionais liberais 
e altos funcionrios pblicos - transportava esse modelo para os austeros sobrados urbanos: a mulher restringia-se s quatro paredes de sua casa, supervisionando 
o trabalho domstico dos escravos (que se alojavam no andar trreo), como a confeco de roupas e a destilao de vinho.


Nos primeiros anos da Repblica, a famlia patriarcal comea a mostrar sinais de fraqueza. No que ela fosse incompatvel com o novo regime. So as cidades, as novas 
profisses, a luz eltrica, os bondes, os imigrantes, as lojas comerciais, as indstrias, que ameaam o patriarca.
Antes, ele podia manter seu extenso cl no mais completo isolamento. Seus agregados, famlias inteiras submetidas a ele, podiam ser ricos ou pobres, no importava, 
pois eram todos igualmente da grande Famlia. Trabalhavam em suas terras e obedeciam. Pouco a pouco, o patriarca  obrigado a se relacionar com os outrora indesejveis 
elementos "de fora". Os filhos sero matriculados na Faculdade de Direito. Um dia, toma-se mais conveniente que seu primognito se case, no mais com aquela obscura 
priminha remediada, mas com a filha de um riqussimo banqueiro da capital. Ele prprio  forado a ampliar seus negcios nos centros urbanos, para que seu patrimnio 
no sucumba  nova mar do progresso. Ele ir aplicar dinheiro em outras atividades, alm da fazenda. Chega tambm o momento de abandonar a casa-grande e se mudar 
para um palacete na Capital. Talvez seja possvel levar junto um parente ou outro, mas o grosso dos leais agregados fica por l mesmo. E se tornam os "primos pobres" 
do interior, que, com o tempo, sero cada vez mais pobres e menos primos.
O imprio do patriarca se reduz. Ou, por outra, muda de natureza: agora ele  um industrial, um pioneiro no melhor estilo capitalista, um banqueiro, um grande negociante 
e tambm um fazendeiro.

"O mundo patriarcal se resumia na austera casa-grande, cercada de cafezais e terreiros, onde ecoavam as ordem dos capatazes e o burburinho dos escravos. Com os novos 
tempos, esse mundo ir se ampliar - e o patriarca se mudar com sua famlia para um palacete na Capital."



Homem que se prezasse era bem-falante. A oratria compunha a personalidade masculina do mesmo modo que o fraque, o chapu-coco, o cravo na lapela e o soberbo bigode 
- tudo isso acompanhado, naturalmente, de um ttulo de doutor.
"Seu Doutor" integrava o restrito exercito de bacharis formados pelas faculdades de Direito, Engenharia e Medicina. Todas elas, e no s as de Direito (como geralmente 
se supe), so terreno assolado pela retrica, a arte de bem falar. Isto  fcil de entender, j que o persuadir, o convencer e o dissuadir representavam as chaves 
mestras da poltica, do mando, do governo, do controle. E eram os bacharis que assumiam as posies de controle no, Estado, nos negcios e na famlia.
Com eles, a arte da retrica transbordou os paos acadmicos e as assemblias polticas para invadir todos os recantos da sociedade. Um retrato irnico da oratria 
brasileira durante a Belle poque foi feito pela revista Ksmos, em 1906: "Vede-o, austero, severo, srio, brao esticado no ardor do improviso, olhos cerrados pela 
conteno do esprito, afirmando a sua dedicao a um partido ao qual talvez tenha que trair amanh, ou afirrnando o seu nobre desejo de morrer pela Ptria, quando 
talvez o seu nico sincero desejo seja o de repetir a galantina de macuco que foi servida h pouco... A oratria poltica de sobremesa  hoje uma instituio indestrutvel. 
 em banquetes que os presidentes eleitos apresentam a sua plataforma,  em banquetes que se fundam partidos, e  em banquetes que se fazem e desfazem ministrios. 
So banquetes fartos, magnficos, em que se gasta dinheiro a rodo: e isso no admira, porque neles  sempre o povo quem paga o pato... ou o peru. O champagne espuma 
nas taas. Os convivas, encasacados e graves, fingem prestar ateno ao programa poltico do orador, mas esto realmente namorando o prato de fios d'ovos... E o 
orador invoca os 'fundadores da nossa nacionalidade', os 'sagrados princpios de Oitenta e Nove', e declara solenemente que 'o Brasil (...) ser em breve, graas 
a uma poltica enrgica, o primeiro pas do mundo! porque ele, orador, est disposto a dar por isso a sua tranqilidade, o seu saber, o seu estudo, a sua sade, 
a sua vida!' E senta-se suado e comovido, dizendo ao vizinho da esquerda: 'Que tal? falei bem? passe-me aquele prato de marrons-glacs...' "

Existiam, no entanto, numerosos outros tipos de oradores, que sempre arrumavam um jeito de dar o seu toque pessoal s ocasies que se apresentavam.
"Aqui vos apresento o orador dos grmios literrios e dos clubs (...). E moo, plido, elegante e poeta. Manda versos aos jornais, e tem sempre cinco ou seis namoradas. 
E, de todos os scios do club, o que mais docemente sabe falar ao corao das moas. (...) Tem um madrigal para cada menina; e recita versos (...) entre uma polca 
e uma valsa, encostado ao piano, com os olhos pregados no teto Ja sala e um sombrio desengano refletido na face. (...) A meia-noite, quando o presidente do club 
convida as senhoras para a 'modesta ceia' (...), retorcendo o curto bigode frisado, o orador tempera a garganta com um clice do Porto, e enceta o seu infalvel 
brinde  mulher-me,  mulher-esposa,  mulher-filha, essa trilogia divina que  a trpode do amor e o tringulo da Crena!' O brinde  sempre o mesmo, e nunca deixa 
de comover o auditrio (... ). H, porm, ainda o orador dos Grupos e dos Cordes, que  do mesmo gnero, mas de espcie diferente. Este  mais pernstico, e mais 
art noveau, no trajar e no falar, como janota e como orador.
(...) E o orador das funanatas alegres, em que o piano alterna com o violo e a polca militar com a modinha.  o Lcifer das Elos de cabelo frisado e flor atrs 
da orelha.  o Don Juan das Elviras de vestido de chita e leo-oriza no cabelo... A sua imensa gravata de seda vermelha em lao de borboleta  todo um poema; a sua 
gaforinha lustrosa, dividida em 'pastas',  todo um programa.
A bebida do orador poltico  o chanlpagne; a do orador dos clubs  o vinho do Porto; a deste  a cerveja. No fim da ceia, ei-lo que se levanta inspirado: fixa o 
punho esquerdo sobre a mesa, mete a mo direita no bolso da cala e solta o verbo. (...)
"E admirai agora o 'orador dos aniversrios', aquele que bebe  sade do aniversariante e da sua digna famlia. E sempre um amigo ntimo da casa, um papa-jantares, 
um bom moo, que namora a filha mais velha ou ocupa o lugar de guarda-livros do pai. Tem douras de mel na palavra, e nunca se esquece de dizer que o momento  solene, 
que sua voz  dbil, e que a dona da casa  um modelo de virtudes. E, assim que principia a ceia, ainda no meio da canja saborosa, j a dona da casa, que no prescinde 
de receber o ttulo de 'modelo de virtudes', diz com amabilidade: 'Queremos ver hoje o seu brindis, seu Maneco!' E seu Maneco, obsequiador: 'De que ousadias. no 
serei eu capaz para cumprir suas ordens, excelentssima?!.


Este texto foi extrado da Coleo Nosso Sculo, volume 1; 




A Corte Portuguesa no Brasil
A vinda da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro (1808-1821) 

Por Anibal de Almeida Fernandes, Maro, 2002. 



A Europa est devastada pelo furaco Napoleo que mexeu em todos os tronos europeus e, no fim de 1807, est chegando em Portugal. 
 a madrugada de 27/11/1807 e a corte, desesperada, se atropela com pressa e desordem no cais de Belm para embarcar, filhas sem pais, mulheres sem marido, pessoas 
da alta nobreza se acham a bordo sem roupa e com pouco ou nenhum dinheiro. Dom Joo, e Dom Pedro Carlos, infante de Espanha, tomam a galeota Prncipe Real, Dona 
Carlota, as infantas e o infante Dom Miguel, embarcam na fragata Rainha de Portugal; Dom Pedro, prncipe do Brasil, espera a av, a rainha, Dona Maria 1a, a Louca, 
que aos urros entremeados de lamrias e exclamaes de Ai Jesus !, Ai Jesus !, se recusa a embarcar pois quer ficar com o povo e resistir e, ambos, embarcam. Trazem 
metade do tesouro portugus, algo em torno de 80 milhes de cruzados, a outra metade j fora quase toda gasta para comprar a neutralidade com a Frana de Napoleo, 
sequiosa dos tronos europeus, e o que resta em Lisboa, cerca de 10 milhes de cruzados, no dava para mover o reino e pagar as dvidas. 
A esquadra composta de 8 naus, 3 fragatas, 2 brigues, 1 escuna de guerra, 1 charrua de mantimentos e mais 20 navios mercantes da marinha portuguesa foi pequena para 
acomodar as 15.000 pessoas que fogem. 
A frota chegou a ser avistada por Junot quando chegou a Lisboa e, da, vem o dito ficou a ver navios. Muitos nobres que no quiseram fugir, ainda abalados com o 
Massacre dos Tvoras na poca do Marqus de Pombal, aderem ao inimigo e se apressam a lhe fazer rapaps convidando-o para recepes. 

 

Portugal, j vinha desde a poca ps descobrimentos, a perder sua importncia econmica e poltica no contexto mundial, que fora imensa, pois a tenacidade, competncia 
tcnica, empresarial e logstica que demonstrara, fizera o comrcio tornar-se mundial e os lucros e a riqueza foram formidveis para o pas. Dois fatos causam um 
enorme prejuzo s finanas do reino: a Restaurao dos Braganas, aps o domnio espanhol de 1580 a 1640, custou muito caro, pois o auxilio ingls significou o 
casamento da filha de D. Joo 4o com o rei Carlos 2o da Inglaterra em 1661 e, para isso, houve o dote de 2 milhes de cruzados e a entrega da regio de Tanger e 
Bombaim. A alegada expulso dos holandeses de Pernambuco, em 1654, que fora o ponto mais rico do mundo colonial portugus com sua exportao de acar atingindo 
700 mil arrobas, fez com que, entre 1661 (Tratado de paz de Haia) e 1730, Portugal tivesse que pagar  Holanda, 4 milhes de cruzados de indenizao, alm de entregar 
o Ceilo e as ilhas Molucas para a Holanda. 
Por conta dessa desastrada poltica de entrega de patrimnio e perda de renda, em 1800 Portugal j est sem fora pois acabara o dinheiro que vinha do Brasil, cujo 
apogeu foi entre 1750 e 1760, quando se estima que veio uma fortuna, de 2,5 milhes de toneladas de ouro e 1,5 milhes de quilates de diamantes, que ajudou a reconstruir 
Lisboa destruda pelo terremoto ao tempo de D. Jos 1o e do Marqus de Pombal cuja energia, dinamismo e autoridade tiraram Portugal da letargia em que estava desde 
a poca ps descobrimento. Portugal era um pas em processo de alienao como metrpole autnoma pois comeou dando ao ingls condies de igualdade com o portugus, 
avanou a ponto de sacrificar nossa indstria em prol da britnica e acabou por concordar em eliminar a lavoura brasileira para favorecer a agricultura das colnias 
inglesas das Antilhas. 
A corte desembarca a 7/3/1808, todos imundos, fedidos, com pulgas e piolhos, no Rio de Janeiro cuja populao total era de 60.000 almas, das quais 40.000 escravos 
negros. A chegada  baa  assim descrita por um viajante da poca: 
No existe viajante algum que, tendo visto o Rio, no fale com admirao do magnfico espetculo proporcionado pela baa da cidade. Esta baa  ainda mais vasta 
que a baa de Constantinopla, pois tem 5 lguas de extenso por  de milha de largura,  defendida por rochas granticas de efeito grandioso e poderia acolher todas 
as frotas do mundo sem amontoamento. 
Quando se entra na baa, aps o sofrimento da longa travessia, fica-se comovido com o esplendor do panorama: 
Porm, que decepo se sente, oh meu Deus, quando se sai do ancoradouro ? ! Os perfumes que vem da baa so infecto!! A explicao  simples, a gua das casas era 
transportada pelos escravos de vrias fontes em barris semelhantes aos que, no fim da tarde, carregavam os detritos pois as casas no tem fossa sptica j que o 
lenol fretico, por causa do solo pantanoso, est muito prximo da superfcie e todos os detritos domsticos so postos em barris que os escravos pem sobre a cabea 
e vem, em procisso, para o mar onde os jogam, d para imaginar o mau cheiro com o terrvel calor do lugar, esses negros so como o smbolo da cidade. E o ponto 
onde jogam  prximo ao palcio e quem estiver na janela, no pode deixar de ver os horrorosos barris que vo e vem na gua da baa ao cair da tarde e cujo odor 
se faz sentir at o fundo dos quartos. O Hotel Pharoux, que hospeda os estrangeiros, fica inabitvel conforme a direo do vento. Mais tarde, uma viajante francesa 
diz que as margens da baa no passam de um vaso sanitrio infecto e as praias que pareciam to belas do navio, eram o receptculo das imundcies de toda a cidade 
!!!! 
A cidade andava extasiada com as notcias de que estava prximo o dia do rei, em pessoa, estar na exuberante capital tropical, e o vice-rei e capito geral do Brasil, 
Dom Marcos de Noronha e Brito, apoiado pelos grandes da terra, preparava a recepo e a instalao da corte, dando exemplo ao despejar-se, a si prprio, do palacete 
em que vivia para ced-lo aos ilustres migrantes sem teto. S do reino so 15.000 pessoas, da Inglaterra e Frana fortes comerciantes, da Itlia vrios artistas, 
da ustria sbios naturalistas e da costa da frica pretos de vrias compleies. Na realidade, no resta opo para os moradores, pois uma das primeiras leis baixadas 
pelo regente, Dom Joo, foi impedir que os fluminenses tivessem mais que uma propriedade, ordem extensiva s lojas e armazm, determinando que a segunda propriedade 
fosse entregue aos migrantes necessitados vindos da me ptria. Esta lei esteve em vigor at 1818. 
Para se entender essa arbitrariedade h que se conhecer o poder do rei em uma Monarquia Absolutista onde o Estado era apenas um aspecto da glria do rei e no havia 
separao ntida entre suas aes, desejos e vontades, tanto no Estado como em sua vida particular, pois o rei  o senhor de tudo e reinava no pas como dono da 
casa e em casa como dono do pas. A corte do antigo regime  entendida como uma imensa casa do rei e essa posse chega a tudo, tanto  que a separao dos fundos 
econmicos da Casa de Bragana e os fundos do Estado s sero separados com a criao de um Errio Pblico no 1o Reinado, com D. Pedro 1o Imperador (1822-1831). 

A corte endividada e atnita com a novidade dos trpicos encontrou na colnia um tecido social que  assim qualificado: 
J existia na colnia uma aristocracia de poder econmico e privilgio social composta de senhores de engenho, criadores de gado e fazendeiros produtores de vveres 
e mercadorias, os quais agrupados em cls impenetrveis controlavam as reas situadas em torno das principais cidades litorneas sendo que a aristocracia nordestina 
era simptica a Portugal e a do sul era resistente ao poder real, (Alan Manchester). 

D. Joo 6o, (13/5/1767-10/3/1827), 27o Rei de Portugal, Duque de Bragana, Barcelos e Guimares, Marqus de Viosa, Conde de Arraiolos,  baixo, gordo, bonacho, 
comilo, sossegado, carola e s foi rei porque os dois irmos mais velhos morreram e a me ficou louca !!! porm, apesar de uma aparente fraqueza, representa a viso 
do futuro e da adaptabilidade  nova ordem, ps revoluo francesa,  ele a querer vir para o novo mundo,  ele a querer ficar, e a fazer o Brasil, Colnia e Vice 
Reino de 1500 a 1808, virar Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1808-1822),  ele em Janeiro de 1808 a abrir os portos brasileiros num ato que  considerado 
o incio da nossa emancipao econmica,  ele em Abril de 1808 a dar o Alvar de Liberdade Industrial que permite a abertura da tecelagem, da manufatura de metais 
e alimentos porm a alegria dura pouco e os ingleses foram-no a taxar a mercadoria brasileira em 16%, enquanto que a inglesa tem apenas taxa de 15%, o que faz fracassar 
a indstria brasileira,  ele que em 1808 funda o Banco do Brasil para regular a moeda, porm o desmando  de tal ordem, se emite tanto dinheiro que o lastro de 
ouro  superado, o dinheiro perde o valor e a respeitabilidade e o Banco fecha as portas em 1828 insolvente,  ele a quem o Brasil deve o grande esplendor econmico 
do caf no Imprio pois entrega com as prprias mos aos vassalos, mais chegados  corte, as mudas de caf que manda trazer da Africa.  ele, finalmente, a ter a 
perspiccia de fazer o filho ficar, c no Brasil, quando urge voltar a Portugal para acalmar os nimos dos reinis indignados com a ausncia do rei,  ele, injustiado 
pela histria oficial que no lhe d a unanimidade ao julgar como sua, a deciso de vir para o Brasil como estrategista competente que era  ele, sem dvida, a grande 
figura da Casa de Bragana e a quem o Brasil deve sua existncia como Nao. 
Carlota Joaquina, (25/4/1777-7/1/1830), filha de Carlos 4o de Espanha e de Maria Luisa, a fogosa rainha que brigou com a Duquesa de Alba por cimes de Goia o grande 
pintor dos reis de Espanha, era bisneta de Lus XV, tetraneta de Lus XIV, ambos reis de Frana, era baixa, feia, disforme, com barba e bigode, e sonhava com a grandeza 
da Espanha e detestava o Brasil no vendo a hora de voltar para a Europa, no houve na corte no exlio, quem mais se deu a intrigas, e das mais ambiciosas, inclusive 
para submeter o reino aos domnios espanhis. 
D. Joo e Carlota Joaquina, tiveram 9 filhos, entre eles: 1 Imperador, 1 Rei e 2 Rainhas: 
Maria Teresa, princesa da Beira; Antonio, morto jovem; Maria Isabel, mulher de Fernando 7o (1784-1833) rei de Espanha; Pedro, 1o Imperador do Brasil, e rei de Portugal 
como Pedro IV; Maria Francisca, mulher de Carlos 5o (1788-1855) rei de Espanha; Isabel Maria, regente de Portugal (1826-1828); Miguel, que pelo casamento com a filha 
de D. Pedro 1o, sua sobrinha, torna-se rei de Portugal; Maria, morta solteira e Ana, duquesa de Loul. 
A apologia do poder enfatizava as propriedades inatas do soberano com seu carter paternal para com seu povo e sua procedncia divina e sua capacidade divina de 
conceder graas. Porm a nobreza migrada, composta da mais alta nobreza de sangue e espada como os Caparicas, Lavradios, Pombais, Belas, Redondos e a nobreza de 
toga, mais recente e influente nos cargos da administrao do reino, como os Anadia, Vagos, Angeja, Belmonte ou Cadaval, empenhou-se como pode para alargar as distncias 
que as separavam das elites nativas criando uma tenso scio cultural que marca a estada da corte no Brasil. 
Os anos de 1817 e 1818 foram os mais faustosos da permanncia da corte no Brasil. Em particular o perodo entre a chegada da princesa Leopoldina, filha do imperador 
da Austria-Hungria, a 5/11/1817, para o casamento com D. Pedro, Duque de Bragana e Prncipe do Brasil e o aniversrio e coroao e aclamao de D. Joo, a 13/5/1818, 
como monarca de uma tradicional Casa Real europia, foram inmeras festas com desfiles e arcos triunfais pelas ruas da cidade que deslumbraram, pelo luxo, fausto 
e riqueza, a populao da cidade. 
Os sentimentos de vassalagem dos fluminenses se exprimem pelos muitos e gordos donativos feitos para sustentar o dia a dia da corte que era de manuteno carssima 
e contnua pois, s em aves para a alimentao gastava-se 75 contos de ris por ms, e, praticamente, o rei no tinha nenhuma outra renda alm da concesso das mercs, 
franqueadas aos vassalos, como j era praxe em Portugal desde D. Joo 5o, 24o rei de Portugal, (1706-1750), e que era o principal capital econmico de que dispunha 
a monarquia. Em 1800 conseguia-se em Portugal, o Foro de Fidalgo por 25.000 cruzados e o Hbito de Cristo por 5.000 cruzados. Portugal foi diferente das demais nobrezas 
territoriais europias por no fundar o seu estado, e o seu poder, exclusiva ou maioritariamente, nos senhorios da terra, l havia uma categoria de nobre genuinamente 
lusitano, o fidalgo mercador. A partir do Marqus de Pombal, no sculo XVIII, se consolida em Portugal a importncia da burguesia na sociedade portuguesa que participa 
da mquina administrativa e luta pelo ideal da nobilitao ficando cada vez mais rica, enquanto que a nobreza decaa e se endividava cada vez mais. 


D. Joo com a Rainha, Dona Maria 1a, se instalam na Quinta da Boa Vista que recebe em doao de Elias Antonio Lopes, a quem confidenciou maravilhado Eis aqui huma 
varanda Real, Eu no tinha em Portugal cousa assim. Porm, a casa no convence como residncia real a John Luccock que a considera: acanhada e pretensiosa, mal construda 
e pessimamente mobiliada. Carlota Joaquina fica na antiga sede do vice-reino, no centro da cidade, que era absolutamente desprezvel como habitao real, com 63,98 
m. por 23,76 m. de rea porm : um casaro sem nenhum mrito arquitetnico. 
A Quinta avaliada em 400 cruzados rendeu a Elias a Comenda da Ordem de Cristo e o titulo de Cavaleiro da Casa Real, Elias ao morrer, em 1815, deixou uma fortuna 
de 235.908$701 e, ainda mais, 110 escravos avaliados em 9 contos de ris. 
Manuel Jos da Costa Filgueiras Gayo informa no Nobilirio de famlias de Portugal, que o foro de Cavaleiro ou Escudeiro era sinal de nobreza de sangue, principalmente, 
quando esse ttulo j era usado antes da reforma de D. Sebastio em 1572 reforma, esta, que simplificou, e facilitou, as exigncias para qualificar os novos titulares 
j inseridos na nova dinmica social que comea a imperar entre a nobreza de Portugal a partir do sculo XVII. 
Temos outros ricos fluminenses, que tinham preponderncia sobre os outros setores econmicos existentes na colnia, como os comerciantes reinis e a aristocracia 
agrria nativa, e foram esses comerciantes de grosso trato fluminenses, que ajudaram a manter o passadio da corte e foram agraciados com Comendas e Ttulos: Manoel 
Caetano Pinto cuja fortuna, em 1839, era de 280 contos de ris. Jos Incio Vaz Vieira, Antonio Gomes Barroso, Antonio Jos Ferreira, genro de Manoel Caetano Pinto, 
com fortuna de 300 contos de ris, e vrios outros, entre eles o mais influente, Brs Carneiro Leo, o maior dos negociantes de grosso trato do Rio de Janeiro que, 
j em 1802, fora agraciado com a Ordem de Cristo e era Cavaleiro da Casa Real e tinha carta de braso para si e seus 6 filhos. Louis de Freycinet, comentando a vida 
social do Rio informa que ficou atnito com as mulheres da famlia de Carneiro Leo as quais usam jias de tal magnificncia que apenas os diamantes so avaliados 
em 6 milhes de francos. 
Os ricos fluminenses levantavam-se s 9 horas, desjejum s 10, trabalhavam at s 3, fazem em seguida uma longa sesta e, s 20, tomavam um ch com a famlia. Quando 
eram convidados para a casa de amigos iam s 19 e voltavam s 23. Quando tinha baile voltavam s 2 ou 3 horas da madrugada. 
O almoo/jantar comeava com uma sopa de carne com legumes, seguida de frango com arroz e molho picante, entre cada prato uma colherada de farinha de mandioca como 
se fosse o po e, para refrescar o paladar, usavam laranjas e saladas. Como sobremesa tinham o arroz doce, queijo de minas, holands ou ingls, frutas variadas e, 
para beber, porto ou madeira e o caf. Somente os homens usam a faca, mulheres e crianas se servem com os dedos e as escravas comem ao mesmo tempo, em pontos diversos 
da sala sendo que, por vezes, suas senhoras lhes do um bocado com as prprias mos. Os estrangeiros sentiam repugnncia pelo prato de carne seca de Minas com feijo 
preto e farinha de mandioca, tudo isso cozido e amassado com os dedos que so lambidos no final. 
A mulher vivia confinada, privada de liberdade, num contnuo isolamento, sempre fechada em casa e mesmo entre a nobreza vigorava a norma da provncia, de que a mulher 
s trs vezes saa de casa, para ser batizada, para casar, para ser enterrada. As mulheres costumavam sentar-se em esteiras, de pernas cruzadas  maneira oriental, 
junto s janelas rodeadas de escravas para servi-las. O cio e a falta de exerccios rapidamente deformavam o corpo das adolescentes que, aos 13 anos assumiam o 
papel de matronas e, aos 18 j atingiam a plena maturidade fsica. A beleza feminina da poca ia da moa do tipo quebradio, quase doentio,  mulher gorda, mole, 
caseira, maternal, de coxas e ndegas largas, com pezinhos deformados por sapatos apertados demais, de seda nas cores branca, azul, celeste, rosa, que duram 2 dias 
pois as caladas so pssimas, s em 1818 chega a moda dos sapatos envernizados de couro que so carssimos. A cintura de vespa era apertada pelo espartilho. Os 
cabelos eram longos e com todos os formatos arquitetnicos possveis e com nomes pitorescos: tapa missa e trepa moleque. Usavam chales de seda, l, pelo de camelo, 
renda, tric, musselina bordada de ouro ou prata. 
Os homens, sempre de barba e/ou bigode, se vestiam como ingleses e tinham como caracterstica o fardamento das diversas ordens, com guarda roupa composto de calas, 
cales, camisas, casacos, sobrecasacas, chambre de seda, lenos e gravatas, meias de seda, chapus, jaquetas e xales de l, tudo sempre muito colorido. 
A vida social  muito chata e as distraes pouco freqentes pois quase no h reunies sociais. Os jantares, bailes ou reunies em casa particular, so coisas quase 
inexistentes. O 1o teatro foi construdo pelo governo e inaugurado a 12/10/1813, com o nome de Teatro So Joo, continha 1.020 poltronas e 112 camarotes. 

CONCLUSO 

A configurao social da corte joanina no Brasil,  composta por muitos naturais do pas que foram honrados com as Insgnias das Ordens estabelecidas e receberam 
Ttulos e Brases de Armas, dados como prmio de relevantes servios prestados ao rei. A Nao colheu o fruto, de to benfica providncia real, exterminando as 
iluses democrticas e dirigindo, e submetendo, todas as classes sociais na dourada cadeia da subordinao ao rei, sempre tendo em vista a pirmide monrquica e, 
mantendo sob controle os indivduos em seus ofcios e no devido respeito  autoridade Real e, esta semente, ir frutificar com tremenda intensidade no Imprio que 
se instala aps a volta de D. Joo a Portugal, quando ocorre um furor de nobilitao que espanta, at hoje, pela quantidade de ttulos concedidos e cujos titulares 
daro o suporte poltico financeiro ao regime Imperial at o fim. 

A viva de Carneiro Leo, Francisca Maciel da Costa,  feita Baronesa de So Salvador dos Campos de Goitacazes, em 1823, e  a 1a brasileira/o a receber merc de 
ttulo nobilirquico do Imperador. Seu filho, Fernando Carneiro Leo, ser Baro de Vila Nova de So Jos, em 1825, e uma de suas filhas, casa-se com o filho do 
1o Conde de Linhares, Rodrigo de Souza Coutinho, que  o exemplo tpico da nova nobreza portuguesa pois representa a nobilitao de mercadores de grosso trato sem 
nenhuma ascendncia de linhagem de sangue. 
A Baronesa de So Salvador dos Campos de Goitacazes d inicio  nobreza brasileira que nos 67 anos de Imprio se constituiu de 1.211 ttulos assim discriminados: 
Duques: 3, Marqueses: 47, Condes: 51, Viscondes: 235, Bares: 875 
Estes ttulos foram dados, prioritariamente, aos fazendeiros e, depois, aos ocupantes de cargos pblicos, aos comerciantes, aos negociantes e, por fim, aos intelectuais 
e aos capitalistas. 
Os homens da colnia no tinham uma sociedade de corte por estarem longe do rei e, quando ficam frente a frente com o rei e sua corte, ficam arrebatados, pois tudo 
se ofuscava ante o indito da situao, ainda mais aos olhos dos potentados fluminenses, atrados pelo brilho da corte que se insere em seu cotidiano, e eles se 
submetem s adversidades da vida palaciana pois os ricos do Rio de Janeiro querem tornar-se nobres, ter um ttulo, freqentar o trono, por ser este o primeiro, e 
mais forte, valor da sociedade pr capitalista, e colocam as suas bolsas  disposio do rei que as usa com sofreguido. 

A estada de D. Joo 6o no Rio, permitiu a reorganizao poltica-jurdica do pas e se estabeleceram os contatos, mais ou menos amistosos, mais ou menos conflitantes, 
entre as 2 faces, a nobreza migrada e as elites da terra constituda por negociantes de grosso trato, sendo que, os reinis primavam por alargar e enfatizar as 
distncias honorficas insuperveis, pois era o que restara para essa gente saqueada, perseguida, exilada, humilhada, na indigncia financeira que, ao desembarcar, 
no tinha nada alm da honra e da etiqueta como os nicos elementos que lhes conferiam identidade como grupo e podiam qualific-los no teatro da corte, e aos da 
terra nada mais restava que ostentar o poderio econmico que, pensavam, poderia lhes comprar a distino junto ao rei. Nesse encontro, nada tranqilo, nessa fuso 
conflituosa de interesses, orquestrada, sabiamente pelo rei, se definiram os contornos da nascente classe dirigente brasileira, que promoveu a construo do Estado 
Imperial durante o sculo XIX e, em algumas particularidades, permanecem como elementos construtivos da relao poltica social no Estado Brasileiro, at hoje. 




Bibliografia: A Corte no Exlio, Jurandir Malerba, 2000, pgs: vrias pginas tem trechos citados; As Barbas do Imperador, Lillian Schwarcz, 1996; O Brasil no Tempo 
de D. Pedro II, Frederic Mauro, 1991; Titulares do Imprio, Carlos Rheingantz, 1960; 500 Anos de Brasil, Herdoto Barbeiro e Bruna Cantelle, 1999; Histria do Brazil, 
Rocha Pombo, Benjamin de Aguila, Edio Ilustrada. 




A Inconfidncia Mineira
INTRODUO 

O movimento mineiro foi o primeiro a realmente manifestar com clareza a inteno da colnia de romper suas relaes com a metrpole. Outras rebelies j haviam ocorrido 
na colnia que, no entanto, possuam reivindicaes parciais, locais, que nunca propuseram a Independncia em relao a Portugal. 
A importncia da Inconfidncia Mineira reside no fato de exprimir a decadncia da poltica colonial e ao mesmo tempo a influncia das idias iluministas sobre a 
elite colonial que, na prtica, foi quem organizou o movimento 
 
Museu da Inconfidncia



AS RAZES DO MOVIMENTO 

Vrios foram os motivos que determinaram o incio do movimento, reunindo proprietrios rurais, intelectuais, clrigos e militares, numa conspirao que pretendia 
eliminar a dominao portuguesa e criar um pas livre no Brasil, em 1789 


A Crise Econmica: 

O sculo XVIII foi caracterizado pelo brutal aumento da explorao portuguesa sobre sua colnia na Amrica. Apesar de o Brasil sempre ter sido uma colnia de explorao, 
ou seja, ter servido aos interesses econmicos de Portugal, durante o sculo XVIII, a nao portuguesa conheceu uma maior decadncia econmica, entendido principalmente 
pelos dficits crescentes frente a Inglaterra, levando-a a aumentar a explorao sobre suas reas coloniais e utilizando para isso uma nova forma de organizao 
do prprio Estado, influenciado pelo avano das idias iluministas, que convencionou-se chamar "Despotismo Esclarecido" 
Nesse sentido, a poltica pombalina para o Brasil, normalmente vista como mais racional, representou na prtica uma explorao mais racional, com a organizao das 
Companhias de Comrcio monopolistas, que atuaram em diversas regies do Brasil 
Em Minas Gerais, especificamente, que se constitua na mais importante regio aurfera e diamantfera brasileira, o peso da espoliao lusitana se fazia sentir com 
maior intensidade. 
A explorao de diamantes era monopolizada pela Coroa desde 1731, que demarcara a regio, proibindo o ingresso de particulares em tal atividade. Ao mesmo tempo, 
as jazidas da regio aurfera se esgotavam com muita repidez, em parte por ser o ouro de Aluvio, em parte pelas tcnicas precrias que eram empregadas na atividade 
e esse esgotamento refletia-se na reduo dos tributos pagos a Coroa, fixado em "Um Quinto", portanto vinculado  produo. Para a Coroa, no entanto, a reduo no 
pagamento de impostos devia-se a fraude e ao contrabando e isso explica a mudana na poltica tributria: Em 1750, o quinto foi substitudo por um sistema de cota 
fixa, definido em 100 arrobas por ano (1500 Kg). Como a produo do ouro continuava a diminuir, tornou-se comum o no pagamento completo do tributo e a cada ano 
a dvida tendeu a aumentar e a Coroa resolveu, em 1763, instituir a Derrama. No era um novo imposto, mas a cobrana da diferena em relao  aquilo que deveria 
ter sido pago. Essa cobrana era arbitrria e executada com extrema violncia pelas autoridades portuguesas no Brasil, gerando no apenas um problema financeira, 
mas o aumento da revolta contra a situao de dominao. 
Soma-se a isso as dificuldades dos mineradores em importar produtos essenciais como ferro, ao e mesmo escravos, produtos esses que tinham seus preos elevados constantemente. 
Um dos principais exemplos dessa situao foi o "Alvar de proibio Industrial" baixado em 1785 por D. Maria I, a louca, que proibia a existncia de manufaturas 
no Brasil. Os efeitos do alvar foram particularmente desastrosos para a populao interiorana, que costumava abastecer-se de tecidos, calados e outros gneros 
nas pequenas oficinas locais ou mesmo domsticas e que, a partir da, dependeria das tropas que traziam do litoral os produtos importados, por preos muito elevados 
e em quantidade nem sempre suficiente. 
 
Igreja em Vila Rica



Influncias Externas 

O ideal Iluminista difundiu-se na Europa ao longo do sculo XVIII, principalmente a partir da obra de filsofos franceses e teve grande repercusso na Amrica; primeiro 
influenciando a Independncia dos EUA e posteriormente as colnias ibricas. 
Ao longo do sculo XVIII tornou-se comum  elite colonial, enviar seus filhos para estudar na Europa, onde tomaram contato com as idias que clamavam por direitos, 
liberdade e igualdade. De volta a colnia, esses jovens traziam no s os ideais de Locke, Montesquieu e Rousseau , mas uma percepo mais acabada em relao a crise 
do Antigo Regime, representada pela decadncia do absolutismo e pelas mudanas que se processavam em vrias naes, mesmo que ainda controladas por monarcas despticos. 
Outra importante influncia que marcou a Inconfidncia Mineira foi a Independncia das 13 colnias inglesas na Amrica do Norte, que apoiadas nas idias iluministas 
no s romperam com a metrpole, mas criaram uma nao soberana, republicana e federativa. A vitria dos colonos norte americanos frente a Inglaterra serviu de exemplo 
e estmulo a outros movimentos emancipacionistas na Amrica ibrica, incluindo o Brasil. 
Percebe-se essa influncia, atravs da atitude do estudante brasileiro Jos Joaquim da Maia que, em Paris, entrou em contato com Thomas Jefferson, representante 
do governo dos EUA na Frana, para solicitar o apoio dos norte americanos ao movimento de rebelio contra a dominao portuguesa, que estava prestes a eclodir no 
Brasil. 
Em uma das cartas mais famosas de Maia a Thomas Jefferson, o estudante brasileiro escreveu: "Sou brasileiro e sabeis que minha desgraada ptria geme em um espantoso 
cativeiro, que se torna cada dia menos suportvel, desde a poca de vossa gloriosa independncia, pois que os brbaros portugueses nada pouparam para nos tomar desgraados, 
com o temor que segussemos os vossos passos; ... estamos dispostos a seguir o marcante exemplo que acabais de nos dar... quebrar nossas cadeias e fazer reviver 
nossa liberdade que est completamente morta e oprimida pela fora, que  o nico direito que os europeus possuem sobre a Amrica... Isto posto, senhor,  a vossa 
nao que acreditamos ser a mais indicada para nos dar socorro, no s porque ela nos deu o exemplo, mas tambm porque a natureza nos fez habitantes do mesmo continente 
e, assim, de alguma maneira, compatriotas". 

A CONSPIRAO 
 
Tiradentes


A Inconfidncia Mineira na verdade no passou de uma conspirao, onde os principais protagonistas eram elementos da elite colonial, homens ligados  explorao 
aurfera,  produo agrcola ou a criao de animais, sendo que vrios deles estudaram na Europa e que organizavam o movimento exatamente em oposio as determinaes 
do pacto colonial, enrijecidas no sculo XVIII. Alm destes, encontramos ainda alguns indivduos de uma camada intermediria, como o prprio Tiradentes, filho de 
um pequeno proprietrio e que, aps dedicar-se a vrias atividades, seguiu a carreira militar, sendo portanto, um dos poucos indivduos sem posses que participaram 
do movimento. Essa situao explica a posio dos inconfidentes em relao a escravido, muito destacada nos livros de histria; de fato, a maior parte dos membros 
das conspiraes se opunha a abolio da escravido, enquanto poucos, incluindo Tiradentes, defendiam a libertao dos escravos. As idias liberais no Brasil tinham 
seus limites bem definidos, na verdade a liberdade era vista a partir do interesse de uma minoria, como a necessidade de ruptura dos laos com a metrpole, porm, 
sem que rompessem as estruturas socioeconmicas. Mesmo do ponto de vista poltico, a liberdade possuia limites. A luta pela independencia inclua ainda a definio 
do regime poltico a ser adotado, embora a maioria defendesse a formao de uma Repblica que fosse Federativa, porm no garantia o direito de participao poltica 
a todos os homens. Na verdade os inconfidentes no possuam uma orientao poltica definida, mas um conjunto de propostas, que tratavam de questes secundrias, 
como a organizao da capital em So Joo Del Rei ou ainda a criao de uma Universidade em Vila Rica. 
O movimento conspiratrio tornou-se maior aps a chegada do Visconde de Barbacena, nomeado novo governador da capitania de Minas Gerais e incumbido de executar uma 
nova derrama, utilizando-se de todo o rigor necessrio para garantir a chegado do ouro a Portugal. De setembro de 1788 em diante, as reunies tornaram intensas, 
onde eram alimentadas vrias discusses sobre temas variados e o entusiasmo exagerado contrastava com a falta de organizao militar para a execuo da independencia. 
Tiradentes e outros membros da conspirao procuravam garantir o apoio dos proprietrio rurais, levando suas propostas de "revoluo" a todos que, de alguma forma, 
pudessem apoiar. 
Um os mineradores contatados foi o coronel Joaquim Silvrio dos Reis que, a princpio aderiu ao movimento, pois como a maioria da elite, era um devedor de impostos, 
no entanto, com medo de ser envolvido diretamente, resolveu deletar a conspirao. Em 15 de maro de 1789 encontrou-se com o governador, Visconde de Barbacena e 
formalizou por escrito a dnncia de conspirao. Com o apoio das autoridades portuguesas instaladas no Rio de Janeiro, iniciou-se uma sequncia de prises, sendo 
Tiradentes um dos primeiros a ser feito prisineiro, na capital, onde se encontrava em busca de apoio ao movimento e alguns dias depois iniciava-se a priso dos envolvidos 
na regio das Gerais e uma grande devassa para apurar os delitos. 
Num primeiro momento os inconfidentes negaram a existncia de um movimento contrrio a metrpole, porm a partir de novembro vrios participantes presos passaram 
a confessar a existncia da conspirao, descrevendo minuciosamente as reunies, os planos e os nomes dos participantes, encabeada pelo alferes Tiradentes. 

Tiradentes sempre negou a existncia de um movimento de conspirao, porm, aps vrios depoimentos que o incriminava, na Quarta audincia, no incio de 1790, admitiu 
no s a existncia do movimento, como sua posio de lder . 
A devassa promoveu a acusao de 34 pessoas, que tiveram suas sentenas definidas em 19 de abril de 1792, com onze dos acusados condenados a morte: Tiradentes, Francisco 
de Paula Freire de Andrade, Jos lvares Maciel, Lus Vaz de Toledo Piza, Alvarenga Peixoto, Salvador do Amaral Gurgel, Domingos Barbosa, Francisco Oliveira Lopes, 
Jos Resende da Costa (pai), Jos Resende da Costa (filho) e Domingos de Abreu Vieira. 
Desses, apenas Tiradentes foi executado, os demais tiveram a pena comutada para degredo perptuo por D. Maria I. O Alferes foi executado em 21 de abril de 1792 no 
Rio de Janeiro, esquartejado, sendo as partes de seu corpo foram expostas em Minas como advertncia a novas tentativas de rebelio. 




Conjurao Baiana
INTRODUO

Em agosto de 1798 comeam a aparecer nas portas de igrejas e casas da Bahia, panfletos que pregavam um levante geral e a instalao de um governo democrtico, livre 
e independente do poder metropolitano. Os mesmos ideais de repblica, liberdade e igualdade que estiveram presentes na Inconfidncia Mineira, agitavam agora a Bahia.
As inflamadas discusses na "Academia dos Renascidos" resultaro na Conjurao Baiana em 1789. Esse movimento, tambm chamado de Revolta dos Alfaiates foi uma conspirao 
de carter emancipacionista, articulada por pequenos comerciantes e artesos, destacando-se os alfaiates, alm de soldados, religiosos, intelectuais, e setores populares.
Se a singularidade da Inconfidncia de Tiradentes est em seu sentido pioneiro, j que apesar de todos seus limites, foi o primeiro movimento social de carter republicano 
em nossa histria, a Conjurao Baiana, mais ampla em sua composio social, apresenta o componente popular que ir direciona-la para uma proposta tambm mais ampla, 
incluindo a abolio da escravatura. Eis a a singularidade da Conjurao Baiana, que tambm  pioneira, por apresentar pela primeira vez em nossa histria elementos 
das camadas populares articulados para conquista de uma repblica abolicionista.

ANTECEDENTES

A segunda metade do sculo XVIII  marcada por profundas transformaes na histria, que assinalam a crise do Antigo Regime europeu e de seu desdobramento na Amrica, 
o Antigo Sistema Colonial.
No Brasil, os princpios iluministas e a independncia dos Estados Unidos, j tinham influenciado a Inconfidncia Mineira em 1789. Os ideais de liberdade e igualdade 
se contrastavam com a precria condio de vida do povo, sendo que, a elevada carga tributria e a escassez de alimentos, tornavam ainda mais grave o quadro scio-econmico 
do Brasil. Este contexto ser responsvel por uma srie de motins e aes extremadas dos setores mais pobres da populao baiana, que em 1797 promoveu vrios saques 
em estabelecimentos comerciais portugueses de Salvador.
Nessa conjuntura de crise, foi fundada em Salvador a "Academia dos Renascidos", uma associao literria que discutia os ideais do iluminismo e os problemas sociais 
que afetavam a populao. Essa associao tinha sido criada pela loja manica "Cavaleiros da Luz", da qual participavam nomes ilustres da regio, como o doutor 
Cipriano Barata e o professor Francisco Muniz Barreto, entre outros.
A conspirao para o movimento, surgiu com as discusses promovidas pela Academia dos Renascidos e contou com a participao de pequenos comerciantes, soldados, 
artesos, alfaiates, negros libertos e mulatos, caracterizando-se assim, como um dos primeiros movimentos populares da Histria do Brasil.
A participao popular e o objetivo de emancipar a colnia e abolir a escravido, marcam uma diferena qualitativa desse movimento em relao  Inconfidncia Mineira, 
que marcada por uma composio social mais elitista, no se posicionou formalmente em relao ao escravismo.

A CONJURAO



Entre as lideranas do movimento, destacaram-se os alfaiates Joo de Deus do Nascimento e Manuel Faustino dos Santos Lira (este com apenas 18 anos de idade), alm 
dos soldados Lucas Dantas e Luiz Gonzaga das Virgens, todos mulatos. Um outro destaque desse movimento foi a participao de mulheres negras, como as forras Ana 
Romana e Domingas Maria do Nascimento.
As ruas de Salvador foram tomadas pelos revolucionrios Luiz Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas que iniciaram a panfletagem como forma de obter mais apoio popular 
e incitar  rebelio. Os panfletos difundiam pequenos textos e palavras de ordem, com base naquilo que as autoridades coloniais chamavam de "abominveis princpios 
franceses".
A Revolta dos Alfaiates foi fortemente influenciada pela fase popular da Revoluo Francesa, quando os jacobinos liderados por Robespierre conseguiram, apesar da 
ditadura poltica, importantes avanos sociais em benefcio das camadas populares, como o sufrgio universal, ensino gratuito e abolio da escravido nas colnias 
francesas. Essas conquistas, principalmente essa ltima influenciaram outros movimentos de independncia na Amrica Latina, destacando-se a luta por uma Repblica 
abolicionista no Haiti e em So Domingos, acompanhada de liberdade no comrcio, do fim dos privilgios polticos e sociais, da punio aos membros do clero contrrios 
 liberdade e do aumento do soldo dos militares.
A violenta represso metropolitana conseguiu deter o movimento, que apenas iniciava-se, detendo e torturando os primeiros suspeitos. Governava a Bahia nessa poca 
(1788-1801) D. Fernando Jos de Portugal e Castro, que encarregou o coronel Alexandre Teotnio de Souza de surpreender os revoltosos. Com as delaes, os principais 
lderes foram presos e o movimento, que no chegou a se concretizar, foi totalmente desarticulado.
Aps o processo de julgamento, os mais pobres como Manuel Faustino dos Santos Lira e Joo de Deus do Nascimento e os mulatos Luiz Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas 
foram condenados  morte por enforcamento, sendo executados no Largo da Piedade a 8 de novembro de 1799. Outros, como Cipriano Barata, o tenente Herngenes d??Aguilar 
e o professor Francisco Moniz foram absolvidos. Os pobres Incio da Silva Pimentel, Romo Pinheiro, Jos Flix, Incio Pires, Manuel Jos e Luiz de Frana Pires, 
foram acusados de envolvimento "grave", recebendo pena de priso perptua ou degredo na frica. J os elementos pertencentes  loja manica "Cavaleiros da Luz" 
foram absolvidos deixando clara que a pena pela condenao, correspondia  condio scio-econmica e  origem racial dos condenados. A extrema dureza na condenao 
aos mais pobres, que eram negros e mulatos,  atribuda ao temor de que se repetissem no Brasil as rebelies de negros e mulatos que, na mesma poca, atingiam as 
Antilhas. 




Mata Atlntica
BREVE HISTRIA DA DEFESA DA MATA ATLNTICA DO BRASIL 


Por Cristiano Catarin 

... a estender os olhos, no podamos ver seno terras e arvoredos. Pero Vaz de Caminha. 

Apesar das sinceras palavras escritas por Caminha em sua carta de batismo ao Brasil, o imenso verde a perder de vista presente nas regies litorneas do Novo 
Mundo vem sendo brutalmente devastado h sculos, comprometendo amplamente toda sua reserva natural. 

Por outro lado,  interessante saber que h mais de 200 anos muitas vozes foram levantadas em defesa da Mata Atlntica brasileira. A mdia contempornea, por meio 
dos mais diversos canais de comunicao existentes, dificilmente deixa de registrar uma pequena ou completa reportagem sobre os problemas ambientais que afligem 
o planeta Terra. Pode-se dizer que o assunto est na moda. Quem ainda no ouviu falar do aquecimento global? Infelizmente, a preocupao revelada atualmente 
 uma manifestao muito mais terica duma diplomacia mundial focada demasiadamente em interesses capitalistas. Muito pouco foi feito para que uma conscientizao 
macia contamine positivamente toda comunidade mundial e tambm os interesses polticos das naes. 

O Brasil  um pas privilegiado: cercado por oceanos, lagos e rios de gua doce; possuidor duma floresta exuberante e repleto de um vasto territrio, composto duma 
terra frtil capaz de produzir as mais variadas culturas de consumo. No entanto, a realidade da Mata Atlntica brasileira  bem mais cinza do que se pode imaginar. 
Dos milhes de hectares que compunham toda mata original restam aproximadamente 7%. 

Embora tenha ocupado grande espao nos relatos aferidos no perodo do descobrimento, a preservao da Mata Atlntica brasileira, especialmente na poca da colonizao 
no era prioridade. Os colonizadores logo perceberam o poder econmico oferecido pela fertilidade da terra. O relato a seguir, proferido pelo jesuta Andr Joo 
Antonil em 1711, deixa evidente, mesmo que indiretamente, que a floresta brasileira era um empecilho para produo e assentamento na poca colonial do Brasil: feita 
a escolha da terra para a cana, roa-se, queima-se, alimpa-se, tirando-lhe tudo o que podia servir de obstculo. 

A cultura da cana-de-acar dependia de grandes reas limpas. Para a colheita da cana no tempo apropriado, faziam-se grandes queimadas no solo. Este processo era 
repetido diversas vezes. O procedimento de queimadas tambm era utilizado para mudana de cultura de plantio. Em pouco tempo este mesmo solo outrora verde e extremamente 
frtil tornou-se fraco, opaco e pobre. 

Dentre os relatos em defesa da preservao da Mata Atlntica, vemos a seguir as palavras do naturalista italiano Domenico Vandelli que se quer visitou o Brasil. 
Porm, tudo que registrou em sua obra Memria sobre a agricultura de Portugal e de suas conquistas o carter destrutivo da lavoura brasileira, datada de 1772, foi 
por meio de seus alunos: vai-se estendendo a agricultura nas bordas dos rios no interior do pas, mas isso com um mtodo que com o tempo ser muito prejudicial. 
Porque consiste em queimar antiqssimos bosques cujas madeiras, pela facilidade de transporte pelos rios, seriam muito teis para a construo de navios, ou para 
a tinturaria, ou para os marceneiros. Queimados estes bosques, semeiam por dois ou trs anos, enquanto dura a fertilidade produzida pelas cinzas, a qual diminuda 
deixam inculto este terreno e queimam outros bosques. E assim vo continuando na destruio dos bosques nas vizinhanas dos rios. 

A prtica da queima indiscriminada minava qualquer possibilidade de se explorar em sentido mais amplo a dimenso econmica dos recursos naturais do Brasil. Vandelli 
demonstra uma crtica pragmtica neste aspecto. 

Os artistas romancistas comearam a difundir um discurso mais consistente com respeito ao carter predatrio dispensado nas florestas brasileiras, especialmente 
quando ex-alunos de Vandelli regressaram para o Brasil, iniciando uma espcie de protesto escrito espalhado por diversas regies do pas. Outros estudiosos e escritores 
do assunto como: Gregrio de Moraes Navarro e Manuel Ferreira da Cmara Bittencourt e S comearam a apontar as diversas conseqncias da rotina de destruio contida 
nas florestas brasileiras (at mesmo o projeto de independncia brasileira foi citado por cientistas polticos no sentido de manter um progresso e autonomia para 
conservar uma unio poltica com Portugal) e tambm, o que poderia ser feito para reduzir o cenrio do desmatamento em massa. 

Sousa Coutinho (ministro da Marinha e do Ultramar entre 1796 e 1801) foi um personagem que convenceu a Coroa portuguesa a tomar a iniciativa de acompanhar mais 
de perto a explorao do solo e da madeira no territrio brasileiro por meio de cartas rgias encaminhadas aos governadores de algumas capitanias do pas. Este mecanismo 
teve o objetivo de intensificar o processo, visto que um procedimento similar a este j havia sido feito no sculo XVII com a elaborao de regimentos e determinaes 
na inteno de regular a extrao florestal e garantir o suprimento de madeiras nobres para o Estado. 

Todas as matas e arvoredos localizados nas costas martimas e rios navegveis deixaram de ser ocupadas e negociadas pelo processo de sesmarias. Portanto, estas regies 
passaram a ser terras exclusivas da Coroa portuguesa. As terras que j haviam sido negociadas foram devolvidas a Coroa e seus proprietrios anteriores foram indenizados 
com a concesso de novas terras em regies interioranas. Quem desobedecesse a esta determinao sofreria severas punies. 

Pouco tempo depois, Sousa Coutinho nomeou o jurista baiano Baltasar da Silva Lisboa para ocupar o cargo de ouvidor e juiz conservador das matas da comarca de Ilhus 
(Ilhus era uma rea estratgica, devido sua localizao e qualidade das matas). Baltasar desempenharia uma funo de fiscalizao e organizao em todo processo 
ambiental, tornando-se comum a partir de ento os termos de preservao ambiental e reserva florestal. 

Contudo, a caracterstica predatria presente nos recursos naturais do Brasil gerou e geram preocupaes e alertas de estudiosos de todo tempo. O Brasil, pas generoso 
em florestas e possuidor de Mata Atlntica despertou uma grande explorao movida pela destruio de brasileiros e estrangeiros. Os personagens e situaes mencionadas 
anteriormente evidenciam a riqueza do debate e, sobretudo, a certeza de que muitas vozes continuam e continuaro sendo levantadas na historia da defesa da Mata Atlntica 
do Brasil. O ilustre Jos Bonifcio tambm participou deste processo de preservao ambiental com propostas e idias oportunas. Estas e outras idias estavam apoiadas 
numa esperana de que o governo do Brasil (por meio de seu corpo legislativo) tomasse ao em favor das florestas brasileiras, com objetivo de garantir a reproduo 
e manuteno das matas. 


Para Saber Mais: 
PDUA, Augusto (Defensores da Mata Atlntica no Brasil colnia)  Revista Nossa Histria 

E-mail: cristiano@historianet.com.br 
Junho de 2007 




Vasco da Gama e Cabral
Vasco da Gama e Pedro lvares Cabral: O que devemos a eles?

Por Cristiano Catarin

Introduo

Por 08 dcadas os portugueses alimentaram o sonho de conhecer e obter novas terras, dentre elas estava o desejo de dominar a rota das ndias.
Em meio  jornada de Pedro lvares Cabral, os marinheiros acompanhavam atentos s evidncias quanto  proximidade de terra  vista, algas marinhas em volta das naves, 
e para eles, o mais comum dos sinais desta proximidade era com o barulho das gaivotas fura -- buxos. Para os portugueses, seguir tais aves era certeza do encontro 
de terras.
No entanto, a histria da empresa martima portuguesa revela uma similaridade desta circunstncia com Pedr??Alvares em relao  expedio de Vasco da Gama, pois 
em 22 de agosto de 1497, como mostra registros do dirio de um dos tripulantes da armada de Gama:
"Achamos muitas aves feitas como garoes, e quando veio  noite tiravam contra o su -- sueste muito rijas, como que eram iam para terra".
Vasco da Gama foi, na verdade, uma espcie de mentor de Cabral, visto que em meio a seus pertences o comandante da nau capitnia levava consigo um manuscrito de 
Vasco da Gama onde este havia relatado orientaes para que a armada cabralina no fosse surpreendida em alto mar, como se fosse um manual para atingir as ndias.
De fato, todo cuidado era necessrio, pois em meio ao trajeto a ser realizado pela armada de Cabral havia, pela frente, a necessidade de passar pelo Cabo das Tormentas, 
assim denominado pelos marinheiros mais expostos. Mas, este termo tambm foi rebatizado por D. Joo II por Cabo da Boa Esperana, chamado pelos determinados estudiosos 
dos mares como. Vasco da Gama conseguiu venc-lo sempre mantendo o rumo a oeste, contrariando a tese do genovz Cristvo Colombo.
Difcil relatar sem revelar o prazer, ou melhor, o alvio de toda tripulao de Cabral no momento da manh de 22 de abril de 1500, quando na oportunidade,  avistado 
um monte mui grande e revestido de arvoredos esverdeados, lindos. A armada ancorou-se a 36 Km da costa, ou como na poca,  6 lguas de distancia da hoje denominada 
Bahia de todos os santos.
O descobrimento do Brasil, ou achamento suscita, ainda em nossos dias, muita polmica. Eduardo Bueno, no historiador, mas um pesquisador cuidadoso e, sobretudo, 
competente, afirma que realmente  difcil "decretar" que os portugueses no conheciam, ou no faziam a menor idia das "novas" terras de Vera Cruz. Pois de acordo 
com relatos, a "escola" martima portuguesa j era portadora de convices de que havia sim novas terras para direo em que de fato, atingiram e lanaram ncoras, 
isto muito antes de Gama, seguindo a rota dos pssaros.
O grande objetivo portugus era atingir a ndia, descobrir a rota das riquezas, das cedas, do outro, das especiarias etc. Afinal, qual era o conhecimento, por parte 
destes perseverantes portugueses, quanto s riquezas, inclusive naturais, existentes do agora Brasil? Nenhuma.
Foram 10 dias ancorados na ilha de Vera Cruz, Pedro lvares Cabral junto a seus comandados entendiam que estava descoberta, na ocasio, uma nova ilha. Como  bom 
saber que quase  sculo depois, todo este (detalhe dos portugueses) ganhara uma estrondosa importncia para o cenrio mundial.
Importncia que dera inicio j com a confirmao do fracasso da empresa das ndias, 30 anos depois do "primeiro" contato com o Brasil.



Outro fato interessante fica por conta da grandiosidade da expedio de Cabral, uma empresa: nutica, militar e mercantil, extremamente onerosa. D. Manuel, a exemplo 
de D. Joo II, recorreu  iniciativa privada para realizao de tal projeto. A Coroa portuguesa no reunia condies suficientes para suprir com todos os gastos 
envolvidos, tanto para manter toda tripulao nas condies mnimas de sobrevivncia, tratava-se de 1500 tripulantes, distribudos em 13 embarcaes. Banqueiros 
como: Bartolomeu Marchioni e Girulamo Sernige contriburam com o financiamento da expedio.
Bartolomeu Dias e seu irmo Diogo Dias tambm estavam presentes: Bartolomeu, no comando da caravela redonda (com velas redondas) enquanto Diogo era capito da nau 
d??el - Rei, eles faziam parte da chamada segunda diviso da esquadra, pois a primeira era formada por 11 naus, sendo a nau capitnia sob comando de Cabral



A Partida

Muita expectativa, tanto dento como tambm fora das naus, Lisboa, mais precisamente no Porto de Rastelo, encontrava-se totalmente tomado por familiares, pela nobreza, 
por escravos, pelo povo... , admirando o "desfile" das embarcaes.
Muitos marinheiros olhavam para trs com verdadeiro pesar no corao,  sabido que a grande maioria no tinha esperana de um dia poder voltar, pois quase todos 
tinham conhecimento dos riscos envolvidos em tal jornada.
Dois a cada trs jamais voltaram, segundo comparao feita pelo historiador Paulo Miceli, muitos, antes de embarcar, deixaram testamentos prontos.
Em 23 de maro de 1500, ocorre a primeira de muitas tragdias em pleno mar, a nau de Vasto de Atade que compunha o comboio, desaparece sem deixar qualquer sinal.
A fantstica viagem de Vasco da Gama rumo  ndia  motivo de muito orgulho para os marinheiros portugueses que h 85 anos mantiveram firmes em navegar pelos mares 
no sentido sul em busca desta terra detentora de muitas riquezas.
Colombo em 1492, seguindo caminho contrrio aos feitos lusos, sempre afirmara ter atingido as ndias, quando na verdade havia descoberto um "novo mundo", a Amrica.



Como j vimos, Vasco da Gama fora um grande modelo a ser seguido, 03 anos aps sua viagem por Pedro lvares Cabral. Gama chegou prximo ao monte que as aves "muito 
rijas" anunciavam, o prprio Dirio que registra os principais momentos da viagem de Gama, escrito por lvaro Velho, embora muitos tenham contestado a autoria de 
tal documento, temo cuidado de mostrar o aparecimento destas aves que mais tarde seria anunciadoras do Brasil com a expedio de Cabral. Mas em 22 de agosto de 1497, 
Vasco da Gama seguiu rumo ao Cabo da Boa Esperana em segmento a ndia. Muitos historiadores dizem que o principal fator para Pedr??Alvares ter "descoberto" o Brasil 
d-se a estes registros do caminho das aves tambm na viagem de Gama.
A nau So Gabriel foi quem acomodou o comandante Vasco da Gama, que navegou durante 93 dias sem avistar qualquer terra, muitas vezes em alto mar, ele foi o inventor 
da manobra martima que ficou conhecida como "a volta do mar", ou "a volta do Brasil", uma ttica audaciosa exercida para contornar a frica.
A viagem de Vasco da Gama contribuiu muito para uma unificao geopoltica entre: Europa, sia, frica e Amrica, desenvolvendo novas relaes econmicas, polticas 
e culturais, Gama ficou extremamente rico e desfrutou de muitas glorias aps este feito, claro que no podemos esquecer da ajuda prestada no sentido de orientar 
a esquadra que em 1500 partira do Porto de Rastelo sob comando de Pedro lvares Cabral precursor de um episdio no menos importante para todos ns brasileiros. 
O que seria do Brasil sem a viagem de Gama e, posteriormente a de Cabral?
Referncia bibliogrfica:

BUENO, Eduardo, A Viagem do Descobrimento: A verdadeira histria da expedio de Cabral, Objetiva, RJ -- 1998, volume I, coleo Terra Brasilis.

VELHO, lvaro, O Descobrimento das ndias: o dirio da viagem de Vasco da Gama, introduo, notas e comentrios finais Eduardo Bueno. Objetiva, RJ -- 1998.

Descrio de figuras:

Figura 1: Retrato de Cabral, envolto as naus que compunham sua expedio
Figura 2: Retrato de Vasco da Gama e vista panormica da cidade de Calicute
Figura 3: Modelo de Caravela Redonda comandada por Bartolomeu Dias

Cristiano Catarin  formado em Histria pela Universidade Grande ABC e escreveu este texto para o HISTORIANET - 01/10/2003

A cidadania roubada
Claudio Recco


Na histria republicana do Brasil, o exerccio da cidadania enfrentou muitas limitaes e, em alguns casos, foi completamente eliminado. Nos casos mais importantes, 
a cidadania foi limitada pela eliminao do direito de voto ou pela supresso da conscientizao poltica acerca dos direitos individuais. 

O Coronelismo 
Durante a Repblica Velha, o direito de voto deixou de ser censitrio e se tornou universal. No entanto, existiam vrios elementos de limitao da cidadania, como 
a excluso das mulheres do processo poltico, a exigncia de alfabetizao ao mesmo tempo em que a Constituio no se propunha a garantir a educao bsica como 
obrigao do Estado e as prticas coronelsticas. 
O coronelismo foi uma conduta poltica que se tornou comum na vida poltica brasileira, principalmente aps a proclamao da Repblica. Durante a Repblica Velha 
(1889-1930), percebemos o coronelismo como limitador da cidadania, pois o poder de mando do coronel influenciava as eleies, fazendo surgir o "voto de cabresto" 
e o "curral eleitoral", expresses que refletem a postura dcil dos comandados, que votam nos candidatos indicados pelo coronel em troca de favores ou simplesmente 
por imposio, uma vez que este  quem controla, direta ou indiretamente, a vida das pessoas em sua propriedade ou na regio. O coronel  sempre um grande proprietrio 
rural, que, naturalmente, possui o poder econmico e, na prtica, o poder poltico local, o poder de polcia e o poder de justia. Em outras palavras, prefeitos, 
delegados e juzes so homens da famlia do coronel ou seus "protegidos". Alm disso, o coronel conta com uma milcia particular, formada pelos jagunos. 
Soma-se a toda essa estrutura de poder a situao de ignorncia  qual est submetida a grande massa de trabalhadores rurais do pas, distante dos centros urbanos, 
da escola e dos meios de comunicao, distante dos direitos - assegurados pela lei, mas negados pelo exerccio do poder por parte das elites rurais. 

Era Vargas 
O perodo de 1930 a 1945 tambm foi caracterizado por prticas que pretenderam limitar o exerccio da cidadania no pas. Durante a maior parte desse perodo, o regime 
foi ditatorial. O "governo provisrio" (1930-34) deu-se com o fechamento do Congresso Nacional e a interveno nos Estados. Apesar de haver uma simpatia de grande 
parte das camadas urbanas pelo movimento tenentista e por muitos de seus representantes que chegavam ao poder com Vargas, os primeiros meses do novo governo foram 
de desiluso, principalmente porque a poltica adotada por Vargas e seus interventores foi marcada pela conciliao com a maior parte dos coronis. 
O principal movimento de contestao  poltica centralizadora de Vargas eclodiu em So Paulo. Foi a Revoluo Constitucionalista. Esse  um exemplo de movimento 
que envolve a cidadania: o povo paulista foi "manobrado" pelas elites. Os livros didticos afirmam que as velhas e novas elites, at ento inimigas, se aliaram e 
comandaram o povo na luta contra o governo federal. Predomina como viso sobre a participao de setores populares nos movimentos polticos mais importantes do pas 
a idia de que a populao nesse momento no passou de "massa de manobra", expresso que, embora geralmente no seja utilizada de forma explcita nos livros, est 
implcita em nossa cultura. 

O "governo constitucional" (1934-37) foi marcado pela conquista de direitos polticos e de liberdade, tendo o nvel de organizao social e de participao se tornado 
maior. A imprensa destaca-se e parte dela assume uma posio crtica ante o governo. Surgem importantes grupos de oposio, como a Aliana Nacional Libertadora, 
com um discurso de esquerda, e a Ao Integralista Brasileira, fascista. Apesar das liberdades, o governo Vargas determinou limites  cidadania, como o controle 
sobre o Congresso Nacional (formado parcialmente pelos "deputados classistas") e a edio da Lei de Segurana Nacional. 
O Estado Novo (1937-45) foi uma ditadura. Eliminou os direitos polticos e individuais e imps ao pas forte represso. Dois instrumentos importantes foram utilizados 
pelo governo, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e o Departamento de Ordem e Poltica Social (DOPS) que atuava como uma polcia poltica, encarregada 
de controlar movimentos de transformao da ordem social vigente. 
Olhar a Era Vargas significa perceber a formao do "Estado de Compromisso" no Brasil, apoiado no industrialismo, no nacionalismo e no trabalhismo. Seu objetivo 
era atender os interesses das novas elites urbanas, preservar certos privilgios dos latifundirios, incorporar os tenentes  estrutura de poder e garantir o apoio 
da classe operria. A industrializao, combinada com a urbanizao, reservou  classe operria um importante papel dentro do projeto nacionalista e levou o Estado 
a desenvolver uma poltica de manipulao, com a perseguio s antigas lideranas sindicais, influenciadas pelo anarquismo. Esse projeto preocupou-se em atrelar 
o movimento sindical ao Estado por meio do assistencialismo, o que veio a eliminar gradualmente a conscincia de classe. 

A Repblica Populista 
O perodo entre 1945 e 1964 foi caracterizado pela reorganizao do Estado de Direito, ou seja, as leis foram respeitadas e as liberdades individuais, garantidas, 
guardadas algumas excees, como o fechamento do PCB em 1947. Durante esse perodo, uma parcela significativa dos trabalhadores organizou-se de forma independente, 
enfraquecendo o "peleguismo", e formaram-se, em alguns Estados do Nordeste, as Ligas Camponesas, num processo de organizao que, apesar de reunir ainda setores 
minoritrios do campesinato, j apresentava certo grau de politizao. A crise do populismo foi responsvel pela polarizao poltica, no ideolgica, entre aqueles 
que defendiam uma poltica popular e nacionalista e aqueles que defendiam a abertura do mercado e uma maior aproximao com a poltica externa dos EUA. Destacam-se 
nesse momento a discusso que envolveu a criao da Petrobrs, a crise em relao  posse de Juscelino Kubitschek e a campanha da legalidade, que garantiu a posse 
de Joo Goulart. 

Ditadura Militar 
Os governos militares que se sucederam no poder desde 1964 tambm foram responsveis pela eliminao da cidadania.  interessante perceber que o modelo poltico 
adotado pelos governos militares tentou disfarar o autoritarismo por meio da manuteno de eleies para o Legislativo e para o Executivo da maioria dos municpios, 
alm de "permitir" a existncia de um partido de oposio. 
Ao mesmo tempo, lderes polticos e sindicais foram cassados, presos ou exilados, a imprensa foi censurada e as principais diretrizes do governo foram impostas pelos 
atos institucionais. Os governos militares inovaram e apostaram no apenas na represso mas tambm em um processo de alienao social, que se deu por meio da propaganda 
direta ou subliminar, caracterizada pelo ufanismo nacionalista, do sucateamento da educao, da qual foi tirada a possibilidade de formao consciente e crtica, 
e do controle sobre os meios de comunicao de massa, em especial a televiso - ainda hoje o documentrio "Muito alm do cidado Kane", da BBC de Londres, sobre 
a construo do imprio das Organizaes Globo, no pode ser visto no pas. 




A Expanso do caf no Brasil
A Expanso do Caf no Brasil 

Introduo 

Originrio da Etipia, onde j era utilizado em tempos remotos, o caf atravessou o Mediterrneo e chegou  Europa durante a segunda metade do sculo 17. Era a poca 
do Barroco e das monarquias absolutas, e a expanso do comrcio internacional enriquecia a burguesia. J no incio do sculo 18, os Cafs tornaram-se centros de 
encontro e reunio elegante de aristocratas, burgueses e intelectuais. 
Precedido pela fama de "provocar idias", o caf conquistou, desde logo, o gosto de escritores, artistas e pensadores. Lord Bacon atribua-lhe a capacidade de "dar 
esprito ao que no o tem". os enciclopedistas eram adeptos fervorosos do caf e dos Cafs, que Ea de Queiroz chegou a afirmar, muito depois, que foi do fundo das 
negras taas "que brotou o raio luminoso de 89", referindo-se s discusses entre iluministas que precederam a Revoluo Francesa. 

No Brasil 

No Brasil, o caf anda, derruba matas, desbrava as terras do Oeste. 
Foi em 1727 que o oficial portugus Francisco de Mello Palheta, vindo da Guiana Francesa, trouxe as primeiras mudas da rubicea para o Brasil. Recebera-as de presente 
das mos de Madame dOrvilliers, esposa do governador de Caiena. Ora, como a sada de sementes e mudas de caf estava proibida na Guiana Francesa,  licito pensar 
que o aventureiro portugus recebeu de Madame no s os frutos, mas outros favores talvez mais doces. As mudas foram plantadas no Par, onde floresceram sem dificuldade. 
Mas no seria no ambiente amaznico que a nova planta iria tornar-se a principal do pas, um sculo e meio mais tarde. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos o 
consumo da bebida crescia extraordinariamente, exigindo o constante aumento da produo, o caf saltou para o Rio de Janeiro, onde comeou a ser plantado em 1781 
por Joo Alberto de Castello Branco. Tinha incio, assim, um novo ciclo econmico na histria do pas. Esgotado o ciclo da minerao do ouro em Minas Gerais, outra 
riqueza surgia, provocando a emergncia de uma aristocracia e promovendo o progresso do Imprio e da Primeira Repblica. 
Penetrando pelo vale do rio Paraba, a mancha verde dos cafezais, que j dominava paisagem fluminense, chegou a So Paulo, que, a partir da dcada de 1880, passou 
a ser o principal produtor nacional da rubicea (caf). Na sua marcha foi criando cidades e fazendo fortunas. Ao terminar o sculo XIX, o Brasil controlava o mercado 
cafeeiro mundial. 

Nas cidades surgem Cafs. E o culto ao "ouro verde" 

"No comeo do sculo o Caf Lamas  um cenculo de (...) irrequietos bomios: estudantes, artistas, bancrios, rapazes do esporte, do funcionalismo pblico e do 
comrcio. Funciona dia e noite. Suas portas no se fecham, nem se abrem. De tal sorte que, uma vez, quando se amotina a Escola Militar em 1904, durante a Revolta 
da Vacina e a notcia corre que, sob o comando do general Travassos, descem os alunos pela.rua da Passagem, caminho do Catete, as portas do estabelecimento, de tanto 
viverem sem (...) movimento, no podem fechar, perras, imobilizadas nos seus gonzos. E assim  que se manda chamar, para fazer mov-las, um esperto carpinteiro". 
(Luiz Edmundo.). 
Na madrugada carioca, os caminhos de todos os bomios convergiam, ziguezagueantes e trpegos, para o Caf Lamas. Depois da meia-noite era para ali que avanavam, 
a passo vacilante, notvagos e intelectuais sados de outros Cafs famosos, como o Papagaio, o Cascata, o Caf Paris e muitos mais. 
Nos movimentados Cafs tomava-se de tudo, inclusive caf, servido por geis e animados garons, que talvez no tivessem plena conscincia de seu papel na complexa 
estrutura econmica do Brasil, mas cuja funo representava o ltimo elo, fumegante, negro e aromtico, da ampla cadeia do caf. 

Financiando, armazenando e vendendo, as Casas Comissrias reinam sobre o caf 

Contemplando certo edifcio em Buenos Aires, Olavo Bilac - ento em viagem oficial  Argentina - exclamava em 1910: "Casa querida! Como tu lembras, aqui, no estrangeiro, 
todas as casas da minha vida". Referia-se  sede do Caf Paulista, empresa de comercializao fundada por Octaviano Alves de Lima na capital portenha. Notvel propagandista, 
Alves de Lima conseguira aumentar o consumo do caf brasileiro pelos argentinos, divulgando o slogan "Caf Paulista (Brasil) - O melhor do mundo". O caf era o smbolo 
do Brasil no exterior. 

 

Entre a fazenda produtora e o consumidor estrangeiro, o caf passava por uma srie de etapas, mudando vrias vezes de mo. Depois de conduzido em lombo de burros 
ou em carros de boi at a estrada de ferro mais prxima, que passava com freqncia pela prpria fazenda, era embarcado em vages, que desciam para o porto de Santos 
ou do Rio de Janeiro. Mas no era imediatamente exportado. Fazia, antes, um estgio nos armazns de alguma Casa Comissria e era ento vendido aos exportadores. 
Os comissrios de caf - geralmente comerciantes portugueses e brasileiros, ou grandes fazendeiros que diversificavam suas atividades metendo-se no comrcio e fundando 
bancos - financiavam plantaes sob hipoteca e por conta da produo a ser vendida. Vendendo o caf aos exportadores, os comissrios tiveram papel decisivo, particularmente 
no primeiro perodo de expanso dessa lavoura (final do sculo XIX), quando a maior parte dos fazendeiros ainda no se mudara para a cidade e vivia isolada nas casas-grandes 
de suas fazendas. . 
Os comissrios cobravam dos fazendeiros comisso pela venda, despesas de armazenamento e juros pelo financiamento da plantao. Houve um momento em que foi muito 
estreita a relao de dependncia pessoal do produtor para com o comissrio, tomando-se este uma espcie de conselheiro daquele. "Da persistir em 1890 o costume 
de grandes casas comerciais hospedarem, nos seus andares superiores, senhores rurais ou pessoas de suas famlias. Quando em visita s cidades, era a ou nas prprias 
residncias dos seus comissrios (...) que se instalava essa gente do interior". (Gilberto Freyre.) '. 
Entre as mais importantes Casas Comissrias estavam a Prado Chaves, que era tambm exportadora - chegando a exportar, em 1910, 1,5 milho de sacas de caf-, a Whitalter 
& Brotero, a Companhia Intermediria de Caf de Santos e a Companhia Paulista de Armazns de Santos, controlada por ingleses. 
Embora a presena estrangeira pudesse ser notada entre os comissrios, era, porm, no comrcio de exportao que mais forte se fazia sentir sua interveno. Das 
dez maiores firmas exportadoras, em 1907, apenas uma era brasileira, a Prado Chaves, que ocupava o stimo lugar. Todas as outras, como a Theodor Wille (alem) e 
a Neumann & Gepp (inglesa), pertenciam a estrangeiros. As vendas externas proporcionavam enormes lucros, pois a prpria cotao do caf era manipulada pelos exportadores, 
numa poca em que as trocas de informaes entre os continentes mostravam-se precrias. 
Apesar das crises econmicas conjunturais, o consumo mundial de caf crescia constantemente. Os lucros dos exportadores, entretanto, no subiam na mesma proporo, 
pois, entre 1891 e 1900, a exportao de 74 491 000 sacas de caf rendeu a cifra de 4691906 contos de ris, enquanto na dcada seguinte, isto , entre 1901 e 1910, 
houve uma queda para 4 179 817 contos de ris no pagamento da exportao de uma quantidade maior de caf (130 599 000 sacas). Em 1906, o providencial Convnio de 
Taubat viria salvar a situao. E os exportadores poderiam, outra vez, dormir em paz. 

Na alta, fortuna. Na baixa, falncia. Um convnio ir equilibrar essa balana? 

Mas, afinal, o que estava acontecendo com o caf? perguntava-se, perplexo, o homem da rua, em fins de 1902. No era ele o "ouro verde" de que tantos falavam? Que 
anncios de crise eram aqueles? Onde estava a antiga euforia, aquela impresso de riqueza sem limites, proporcionada pelo caf, e que foi a marca dos ltimos decnios 
do sculo XIX? 
E, com efeito, aquilo que parecia impossvel na dcada de 1880 estava de fato acontecendo. A cotao internacional do caf caa constantemente, enquanto as fazendas 
lanavam no mercado quantidades crescentes do "ouro verde". A safra dos anos 1901/1902 havia superado a marca de 16 milhes de sacas, para um consumo mundial ligeiramente 
superior a 15 milhes. E a cotao do produto no mercado externo, que havia sido de 102 francos-ouro em 1885, cara para 33 francos-ouro em 1902. De fato, desde 
1893, os preos 
internacionais vinham caindo sistematicamente como conseqncia dos problemas econmicos dos Estados Unidos, nosso principal cliente, e da expanso mundial da produo 
de caf. 

 

Mas durante alguns anos a queda dos preos havia sido compensada pela desvalorizao do mil-ris. Os cafeicultores recebiam menos em libras ou em francos, mas o 
montante de suas rendas em moeda nacional no se alterava substancialmente. Essa desvalorizao do dinheiro era provocada pelo "encilhamento" - poltica de farta 
emisso de papel-moeda adotada na gesto de Ruy Barbosa no Ministrio da Fazenda (1889-1891), durante o governo de Deodoro da Fonseca. Visando a aumentar a quantidade 
de dinheiro em circulao, para incentivar o estabelecimento de indstrias e possibilitar o pagamento da massa assalariada que comeava a substituir os escravos, 
o "encilhamento" gerou um galopante processo de inflao. Essa poltica caracterizou-se tambm pelo estmulo oficial  constituio de sociedades por aes, o que 
gerou desenfreada especulao na Bolsa de Valores. (Da o nome "encilhamento", que se refere ao momento em que so apertadas as selas dos cavalos antes das corridas 
nos hipdromos - e o ritmo das apostas se torna frentico.) No final do sculo XIX, depois de um perodo de euforia, as aes comearam a baixar - e muitos cafeicultores 
abriram falncia. 
Para restaurar as finanas, o presidente Campos Salles, logo que tomou posse, em 1898, passou a aplicar uma poltica deflacionria, forando a revalorizao do mil-ris. 
Ora, revalorizar a moeda significava - caso a tendncia baixista na cotao do caf no fosse modificada - reduzir fortemente a renda dos cafeicultores. E era o 
que estava comeando a acontecer, agora que a poltica "saneadora" de Campos Salles apresentava seus primeiros resultados. 

A opulncia do passado entra em crise 

Em 1902, olhando os jornais do dia, ao tomar o fumegante caf da manh, os homens de negcios no podiam esconder seu temor diante dos fatos. E preciso fazer alguma 
coisa! exclamava o fazendeiro, franzindo o cenho. E preciso fazer algumas coisas! repetiam, como um eco, deputados e senadores, presidentes de Estado, potentados 
do caf. Pois era a rubicea o sustentculo da jovem Repblica, assim como o fora do Imprio. 
Expandindo-se em ondas verdes em direo do Oeste durante a segunda metade do sculo XIX, os cafezais haviam ocupado enormes espaos geogrficos do Rio de Janeiro 
e de So Paulo. Uma nova classe dirigente surgiu da, muito mais poderosa e opulenta do que os antigos bares do acar. Mais urbana do que estes e muito ligada 
 vida cultural e social da Europa, essa nova classe contribuiu poderosamente para modificar a paisagem das cidades. Sua ao fez surgir um novo estilo arquitetnico, 
copiado de modelos europeus, e levou o fausto da casa-grande senhorial s chcaras e sobrados urbanos. No Rio de Janeiro, por exemplo, Antonio Clemente Pinto, Baro 
de Nova Friburgo, possuidor de vinte fazendas, fez construir o Palcio do Catete, entre 1858 e 1865, por 8000 contos de ris. 
A ao urbanizadora do caf permitiu tambm a modernizao das grandes cidades e motivou a revoluo nos transporte com a implantao das primeiras estradas de ferro. 
As ferrovias paulistas - a primeira das quais, ligando Santos a Jundia  de 1867 -, abrindo caminho para o oeste, acompanharam a plstica fronteira verde. E foram 
plantando cidades em seu avano. S em So Paulo, entre 1891 e 1900, foram criados 41 municpios. 

A salvao vem de Taubat 

Em 1906, a crise atingiu seu ponto culminante. A safra de caf desse ano ultrapassou os 20 milhes de sacas, para um consumo mundial inferior a 16 milhes, enquanto 
os preos continuavam a cair. Em fevereiro, reuniram-se em Taubat os presidentes Jorge Tibiri (So Paulo), Nilo Peanha (Rio de Janeiro) e Francisco Salles (Minas), 
procurando encontrar uma sada para o impasse. Precedida de intensas presses dos cafeicultores sobre o presidente da Repblica, Rodrigues Alves - que tomara posse 
em 1902 - para que fosse aprovado um plano de valorizao do caf, proposto pelo industrial paulista Alexandre Siciliano, a reunio estabeleceu princpios que iriam 
modificar inteiramente a orientao econmica do Governo federal. Rodrigues Alves, apesar de paulista e cafeicultor, opunha-se  valorizao, pois queria dar continuidade 
 poltica deflacionria do governo anterior, de Campos Salles. No entanto, obedecendo aos reclamos do "complexo do caf", os presidentes Tibiri, Peanha e Salles 
firmaram acordo que representava literalmente a "salvao da lavoura". Conhecido como Convnio de Taubat, esse acordo fixou os seguintes princpios: a) preo mnimo 
para a saca de caf; b) negociao de um emprstimo externo de 15 milhes de libras esterlinas para custear as compras de caf a serem feitas pelos Governos estaduais, 
com a finalidade de retirar do mercado uma parte do produto; 
c) estabelecimento de um fundo para a estabilizao do cmbio, impedindo assim que o mil-ris fosse revalorizado; esse fundo seria a Caixa de Converso; d) imposio 
de uma taxa proibitiva para impedir o surgimento de novas plantaes. 
"Depois de alguma luta para demover os opositores do plano, o Convnio foi finalmente aprovado pelo Congresso Nacional, no sem certa resistncia de Rodrigues Alves. 
Tal resistncia, alis, custou-lhe o mando poltico do pas. Durante aquele ano ocorreria a sucesso presidencial e os representantes dos grandes Estados rejeitaram 
o candidato preferido de Rodrigues Alves, escolhendo Affonso Penna, inteiramente identificado com a valorizao do caf. Empossado em novembro, Penna honraria fielmente 
seus compromissos com cafeicultura. 
Durante os trs anos seguintes foi implantada a Caixa de Converso e os Estados conseguiram dos banqueiros europeus o ansiado emprstimo de 15 milhes de libras, 
com o qual puderam efetuar compras macias de caf excedente. Em 1909, surgiram os primeiros efeitos da poltica de valorizao. Os preos internacionais do caf 
comearam a subir, enquanto a Caixa de Converso conservava o cmbio artificialmente baixo. No entanto, o pas endividara-se no exterior. Os grandes bancos europeus 
passaram a controlar o comrcio do caf. Muitas fazendas foram vendidas a estrangeiros, pois o esquema valorizador enriqueceu apenas uma parte dos produtores. 
Os principais beneficirios da nova poltica econmica foram basicamente os banqueiros internacionais e as casas comissrias, que, comprando o caf na baixa e vendendo-o 
na alta, auferiram lucros fabulosos. Algumas delas, alis, tornaram-se grandes proprietrias de fazendas. A Prado Chaves, por exemplo, adquiriu, nesse perodo, catorze 
fazendas, vendidas a baixo preo por cafeicultores arruinados, com um total de 3,5 milhes de ps de caf. 


Texto extrado da Enciclopdia "Nosso Sculo" da Abril Cultural 




A Formao da Repblica
O perodo compreendido entre a proclamao da Repblica em 1889 e a Revoluo de 1930, foi tradicionalmente denominado de Repblica Velha. 
Nos ltimos anos, o termo vem gradualmente sendo substitudo por Primeira Repblica, porm, as interpretaes sobre o perodo no sofreram alteraes significativas. 

Os Novos Atores 

Nas ltimas dcadas do sculo XIX o regime monrquico viveu um processo constante de crise, refletindo o surgimento de novos interesses no pas, associados a elite 
cafeeira, aos militares, s camadas urbanas e aos imigrantes, que representavam a nova fora de trabalho. 
O movimento que eliminou a monarquia no pas foi comandado pelo exrcito, associado  elite agrria, particularmente os cafeicultores do oeste paulista. Estes ltimos, 
h duas dcadas haviam organizado um partido poltico, o PRP - Partido Republicano Paulista - que no apenas defendia o ideal republicano, mas tambm a fim da escravido 
e o federalismo que garantiria a autonomia estadual. Foi desta maneira que a elite cafeeira procurou conquistar o apoio dos setores urbanos, de diferentes classes 
e das elites regionais. 


Benjamin Constant


Apesar de dividido em faces, os republicanos histricos, chamados evolucionistas, eram predominantes e defendiam mudanas graduais, sem a participao popular 
no movimento, procurando marginaliza-la no s da ao, mas principalmente da construo do novo modelo poltico. Eram admitidos pelos monarquistas, pois defendiam 
o respeito a ordem pblica, muitos eram cafeeicultores e alguns ainda possuiam escravos; julgavam que chegariam ao poder disputando as eleioes com os partidos tradicionais 
e percebiam a enorme importncia que tinha o governo como instrumento de ao econmica. Seu principal lder era Quintino Bocauva. 
Os militares por sua vez haviam angariado grande prestgio aps a Guerra contra o Paraguai, momento a partir do qual o exrcito passou a se estruturar, destacando 
a importncia das escolas militares, que foram responsveis pela formao ideolgica da maioria dos soldados, das grandes cidades, a partir da ideologia positivista, 
base para a participao poltica cada vez mais ativa dos militares. 
Dentro do exrcito brasileiro destacou-se Benjamim Constant, professor da Escola Militar, acusava o ministrio imperial de falta de patriotismo, por ter punido militares 
que se recusavam a capturar negros foragidos e criticavam pela imprensa os desmandos de polticos corruptos. 
O positivismo  uma ideologia que desenvolveu-se na Frana e ganhou o mundo ocidental, tornando-se predominante j no final do sculo XIX. O nome vem da obra de 
Augusto Comte, "Filosofia Positiva", quando o autor faz uma anlise sobre o desenvolvimento de seu pas ao longo do sculo, atribudo  indstria e a elite industrial, 
grupo esclarecido e capacitado, que, se foi o responsvel pelo progresso econmico, deveria ser o responsvel pelo controle do Estado. Para Comte, caberia a elite 
governar, enquanto caberia ao povo trabalhar. Trabalhar sem reivindicar, sem se organizar e sem protestar, pois "s o trabalho em ordem  que pode determinar o Progresso", 
nascendo da o lema de sua filosofia, que os militares escreveram na bandeira brasileira, aps o golpe de 15 de novembro. 
Existe uma tendncia de se considerar que "os militares" proclamaram a Repblica, ou que, sem os militares, no haveria repblica. 
Primeiro  importante lembrar que havia nas camadas urbanas uma forte disposio a favor do movimento republicano; segundo, j vimos que havia um forte partido poltico, 
representando a nova elite agrria, disposta a chegar ao poder, mesmo de forma moderada; terceiro,  necessrio lembrar que, apesar de existir o "esprito de corpo" 
entre os militares e que a ideologia positivista era cada vez mais forte dentro do exrcito, este encontrava-se dividido e existiam as disputas internas ao mesmo. 
Os militares, de uma forma geral, rechaavam os polticos civis, porm perceberam que era necessria uma aliana com os evolucionistas, pois garantiriam dessa maneira 
o fim da monarquia, mas a manuteno da "ordem". 


Marechal Deodoro


Monarquista convicto, Deodoro enfrentava problemas polticos com parte do ministrio imperial e tambm dentro do exrcito. Participou do movimento republicano a 
partir da crena de que D. Pedro II j no governava e que o ministrio comandado por Ouro Preto pretendia fortalecer a Guarda Nacional, e enfraquecer o exrcito. 
No dia 11 de novembro civis e militares organizaram o levante, cuja idia encontrou a oposio de Floriano Peixoto. 
O governo provisrio criado aps o golpe, foi comandado pelo Marechal Deodoro da Fonseca 

A ESPADA 

Repblica da Espada foi a denominao dada ao perodo que compreende desde 15 de novembro at o final do governo do Marechal Floriano Peixoto, em 1894. Durante este 
perodo, dois militares governaram o pas; da a origem do nome: espada. 
No entanto, apesar de Deodoro e Floriano serem homens do exrcito e possurem o "esprito de corpo" do militar, no podemos dizer que tivemos no Brasil dois governos 
militares, mesmo considerando a tendncia centralizadora dos mesmos. 


Bandeira provisria da Repblica, que foi adotada durante 4 dias apenas


Apesar das contradies que marcaram esses dois primeiros governos do Brasil republicano, e de, muitos pretenderem a continuidade do "poder militar", a renncia 
de Deodoro e a retirada de Floriano, mostram a fora dos grandes cafeeicultores e de setores ligados a exportao. Esa fora se mostrava crescente desde a proclamao 
da Repblica e era percebida tambm entre os polticos civis: a poltica "industrialista" de Rui Barbosa, baseada no emissionismo, encontrou forte oposio das oligarquias, 
principalmente a paulista 
Durante o governo provisrio, encabeado pelo marechal Deodoro, o pas conheceu um processo de "modernizao institucional", destacando-se a separao entre Estado 
e Igreja, sendo que muitas funes civis, at ento controladas pela Igreja Catlica, passaram para o poder pblico; ao mesmo tempo os deputados elaboravam a nova 
constituio, que foi promulgada em fevereiro de 1891, consagrando em seus pontos fundamentais: 
O federalismo, que garantia autonomia aos estados para elaborar sua prpria Constituio, eleger seu governador, realizar emprstimos no exterior, decretar impostos 
e possuir suas prprias foras militares; 
O presidencialismo, o chefe da federao seria o Presidente da Repblica, com poderes para intervir nos estados quando houvesse um tendncia separatista, invaso 
estrangeira ou conflitos entre os estados; 
O regime representativo, o Presidente da Repblica e os governadores estaduais, assim como todos os membros do Poder Legislativo, em todos os nveis, seriam eleitos 
diretamente pelo povo, excludos os analfabetos, as mulheres, os soldados, e os menores de idade. 

A Crise Poltica 

Promulgada a Constitiuio, Deodoro foi eleito pelo Congresso Nacional numa votao marcada por ameaas de interveno militar. No entanto, neste episdio percebe-se 
que o prprio exrcito no era uma fora coesa, pois o Marechal Floriano concorreu a Vice presidente apoiando o candidato das oligarquias, Prudente de Moraes. Apesar 
da derrota de Prudente, o marechal Floriano foi eleito vice presidente. (Pela Constituio de 1891 a eleio para presidente e vice eram separadas e podiam ser eleitos 
candidatos de chapas diferentes). Durante o governo Deodoro a crise poltica agravou-se e foi marcada de um lado pelo autoritarismo e pelo centralismo de Deodoro, 
e por outro, pela oposio exercida pelos grandes fazendeiros atravs do Congresso Nacional, apoiados por parte do exrcito. Em novembro de 1891 Deodoro decretou 
o fechamento do Congresso Nacional, dois pretextos foram utilizados, a aprovao da Lei de Responsabilidade do presidente da Repblica, que poderia sofrer impeachement 
e ser afastado do cargo, em certos casos e a greve da Central do Brasil; porm, sem apoio social, e sofrendo forte oposio da Marinha, no conseguiu manter o poder, 
renunciando no dia 23 do mesmo ms. 


Floriano Peixoto


O governo de Floriano Peixoto foi marcado pelo apoio do Congresso Nacional ao presidente, que, apesar de centralizador e autoritrio, governou para fazer valer a 
Constituio recem promulgada e consolidar a Repblica. 
Do ponto de vista econmico herdou a inflao provocada pelo encilhamento e executou timidamente medidas protecionistas em relao  indstria, assim como a facilitao 
ao crdito, com a preocupao de controlar a especulao. Do ponto de vista poltico, reprimiu as principais revoltas que ocorreram no pas e foram apresentadas 
como subversivas ou monarquistas: a Revolta da Armada e a Revoluo Federalista no Rio Grande do Sul. 
O fato de ser encarado como responsvel por consolidar a Repblica no significa que seu governo tenha sido marcado pela estabilidade. Ao contrrio, vrias manifestaes 
contrrias ao governo ocorreram. No incio de seu governo, o Marechal Floriano enfrentou oposio dentro do prprio exrcito, marcada pelo manifesto dos 13 generais, 
que contestava a legitimidade de seu governo, ao mesmo tempo, enfrentava os problemas derivados dos estados, onde as oligarquias locais disputavam o poder e uma 
fatia dos benefcios econmicos que pudessem ser retirados do governo federal. 
A principal rebelio regional ocorreu no Rio Grande do Sul, onde a luta pelo poder colocou frente a frente os pica-paus, "repblicanos histricos" liderados por 
Jlio de Castilhos, e os maragatos, liderados pelo monarquista Silveira Martins, do Partido Federalista Brasileiro. 
Os maragatos eram defensores de uma reforma constitucional, adotando-se o parlamentarismo e opunham-se ao governo de carter ditatorial de Jlio de Castilhos. 
Floriano pendeu para o lado dos pica-paus, apesar de Castilhos ter apoiado o golpe de Deodoro em 1891. Floriano precisava do apoio da bancada gacha no Congresso 
Nacional. 


Custdio de Melo


Em setembro de 1893 comeou a Segunda Revolta da Armada, com o Almirante Custdio de Melo tentando reeditar o movimento que culminou com a renncia de Deodoro. Apoiado 
no exrcito e no Congresso Nacional que votou o "estado de stio", o presidente executou forte represso aos revoltosos, que se retiraram para o sul e instalaram 
um governo em Desterro, capital de Santa Catarina; em outubro as foras da marinha se unem aos federalistas do Rio Grande do Sul e no incio do ano seguinte dominam 
Curitiba. 
A represso do governo caracterizou-se pela extrema violncia, e tanto os marinheiros como os federalistas gachos foram derrotados, ampliando o prestgio e poder 
de Floriano. Mesmo tentado a permanecer no poder, Floriano percebeu que no teria o apoio da elite cafeeira de So Paulo e que no conseguiria enfrentar a elite 
econmica do pas. Com a posse de Prudente de Moraes terminava a "Repblica da Espada". 




A Igreja e as questes sociais
Por Mariza Magalhes 

Uma Igreja voltada para as questes sociais 

A histria nos mostra que o poder temporal sempre andou de mos dadas com o poder espiritual. Presenciamos essa situao na Frana da idade moderna , em Portugal 
do mesmo perodo e no Brasil a situao no podia ser ao contrrio. 
A histria tambm nos mostra que a partir do golpe militar de 1964, no Brasil, essa unio deixou de existir por alguns membros da igreja catlica. 
A dcada de 1960  marcada por profundas mudanas em mbito poltico, econmico, social e religioso. Estamos no signo da Guerra Fria. Os pases da Amrica Latina, 
com exceo de Cuba, seguiam as doutrinas do mundo capitalista que era representada pelos Estados Unidos. A populao da Amrica Latina era discpula das ideologias 
capitalistas, se no obedecessem as determinaes ideolgicas capitalistas eram perseguidos, presos e torturados. 
No Brasil de 1960, os jovens estudantes que militavam na JUC denunciavam os males do capitalismo, reivindicavam a substituio da economia de mercado, que visava 
lucro, por uma economia mais igualitria de acordo com os princpios sociais. 
 dentro desse contexto histrico que o papa Joo XXIII convocou o Conclio Vaticano II. Iniciado em 8/11/1962 e terminou no papado de Paulo VI em 8/12/1965. 

 por isso que vamos encontrar, alguns religiosos dominicanos, jesutas e alguns intelectuais comprometidos com as questes sociais, esto engajados na vertente 
progressista da igreja catlica que caminhava nas determinaes do Conclio Vaticano II. A Igreja progressista  tambm acompanhada pelos estudantes que faziam parte 
da A C (Ao Catlica): JEC; JOC e JUC (Juventude Estudantil; Operria e Universitria Catlica) 
As contribuies ideolgicas que ajudaram a formar o grupo de esquerda da igreja catlica, no vinham s do Conclio Vaticano II, vinham tambm de telogos alguns 
franceses como: Congar, Chenu que ofereciam idias voltadas ao trabalho social, no qual o ser humano era respeitado, aceito no seu todo. 
O que diferenciava a igreja progressista da igreja conservadora eram as suas prticas. A conservadora era contemplativa enquanto a progressista era participativa. 
Para o grupo progressista o pobre no s necessitava do po para matar a sua fome, era necessrio tambm esclarece-lo por que passava fome e quem o fazia passar 
a fome. 
Essa forma de pensar e atuar da esquerda catlica no agradavam os grupos comprometidos com a poltica capitalista vigente na poca eram os religiosos conservadores; 
o governo brasileiro os empresrios e estudantes comprometidos com as questes capitalistas. Neste momento todos os olhares esto voltados as atuaes polticas 
dos cristos esquerdistas. 
Ainda no incio da dcada de 1960, vamos encontrar militantes catlicos preocupados em criar o MEB (Movimento pela Educao Bsica) a finalidade era atuar em regies 
populares de baixa renda, com os objetivos de alfabetizar e conscientizar politicamente as camadas populares. Em 1962, os militantes da JUC e do MEB criaram a AP 
(Ao Popular) , movimento poltico no-confessional dedicado  luta pelo socialismo e ao uso do mtodo marxista. 

Foram essas prticas que tornaram a Igreja catlica progressista contra o golpe militar implantado no Brasil em 1964. E foi por isso que seus membros foram perseguidos, 
presos, torturados fsico e psicologicamente, em alguns casos chegando a morte. 
Diante dessa situao e com medo que o clero progressista transmitisse idias comunistas ao povo, o Estado autoritrio resolveu o problema vigiando a liberdade de 
pensar a agir dos religiosos. As missas passaram a ser vigiadas, qualquer discurso mais inflamado poderia dar conotao de fala comunista e o padre seria preso para 
verificao. 
Religiosos progressistas no mediam sacrifcios para defender o pensamento da Esquerda crist. So exemplos D. Hlder Cmara e Frei Tito. 

A CNBB surgiu em 1952, como rgo oficial da Igreja Catlica e tinha a sua frente d. Hlder Cmara. Em 1965 ele deixa a Secretria-Geral da CNBB para ser arcebispo 
de Recife. Mesmo ausente da CNBB, continuou exercendo uma grande influncia atravs dos bispos seus amigos. 
O secretrio geral tinha a funo de articular as aes que dinamizavam a conferencia, esta era uma associao dos bispos para um nico fim. Da a necessidade de 
transferi-lo para no influenciar os bispos com suas idias progressistas. 
Frei Tito de Alencar era da Ordem dos Dominicano, preso quando o Convento Alberto Magno situado no bairro das Perdizes, foi invadido pela polcia poltica de So 
Paulo. Este frei fazia parte do grupo de religiosos que absolveram as idias do Conclio Vaticano II com o intuito de diminuir as diferenas sociais e econmicas 
que existem at hoje no pas. 
Frei Tito foi barbaramente torturado fsico e psicologicamente na OBAN e no DOPS aparelhos de represso do Estado, as palavras dos seus torturadores: delegado Fleury 
e capito Albernaz "Se no fala, ser quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visveis.Se sobreviver, jamais esquecer o preo da valentia." 
ficaram impregnadas em sua memria. Em momentos de crise emocional os fantasmas dos seus torturadores surgiam. No conseguindo viver com esses fantasmas optou pelo 
suicdio. No dia 8/8/1974, dia de So Domingos, fundador da Ordem Dominicana, enforcou-se em um bosque da cidade de Lyon na Frana. 




As bases autoritrias do sistema partidrio
Gilvan Cavalcanti de Melo* 
La Insignia. Brasil, outubro de 2005. 

O Brasil, mais que qualquer outro pas da Amrica Latina, chega  metade da primeira dcada do sculo XXI, em compromisso com seu passado. Pode ser considerado o 
local por excelncia da "revoluo passiva". Ou seja, uma "revoluo sem revoluo", conceito gramsciano para designar as mudanas "por cima". 
Aos fundadores do nosso Estado-Nao importava adotar uma institucionalidade liberal. Esta se devia dobrar a realidade, uma vez que se mostrava incompatvel com 
uma sociedade inarticulada e inorgnica. A forma liberal do Estado no podia ser criada em conformidade com o carter da sua sociedade civil, mas devia concentrar 
em si, ao mesmo tempo, que projetava para o futuro, aquilo em que a sociedade deveria converter-se. 
Esse pragmatismo da nossa cultura poltica se apresenta como a compensao necessria  sua natureza autoritria, uma vez que os fins sociais se constituem como 
um segredo da razo de Estado, que, ora  revelado para a sociedade e ora lhe  ocultado, encoberto. Como algo que  criado numa instncia distante dela e que no 
se sente obrigada a consultar suas preferncias. 

Essa  a explicao de fundo para a continuidade dessa cultura poltica no processo que, aps 1930, deflagra a modernizao econmica e nos traz a primazia da indstria 
e do industrialismo, mas, tambm, um momento de triunfo da razo de Estado em busca dos fins civilizatrios e da preservao dos meios coercitivos de controle social 
e produo de uma determinada ordenao societria. 

Esse autoritarismo no poderia ser diferente na questo da organizao do sistema eleitoral e partidrio. As discusses, controvrsias e a evoluo da legislao, 
em diversos momentos de recomposio das foras polticas, comprovam as origens dessa "dialtica sem sntese". Vejamos sua evoluo: o Cdigo Eleitoral de 1932 (Decreto 
n 21.076 de 24.02.1932) - baseado na obra de Joaquim Francisco de Assis Brasil, Democracia Representativa: do Voto e do Modo de Votar, Rio, Imprensa Nacional, 1931 
cria as seguintes normas: 
(a) estabelecimento de tribunais (Supremo Tribunal Eleitoral e tribunais regionais); (b) voto obrigatrio, adulto e universal (inclusive feminino), secreto e alfabetizado; 
(c) adoo do princpio majoritrio na eleio do presidente, dos governadores e dos senadores, e o princpio proporcional para a Cmara Federal e para as Assemblias 
Estaduais. O sistema idealizado por Assis Brasil e operacionalizado em 1932 era ainda caracteristicamente "pr-partidrio", abrigando disposies extremamente frouxas 
nesta matria. Assim, se admitia partidos estaduais, uni-estaduais e candidatos avulsos, sem filiao partidria. 

Mais adiante o Cdigo Eleitoral de 1945 (Decreto n 7.586 de 25.05.1945) - a chamada "Lei Agamenon" institui - uma comisso para elaborar o novo Cdigo.So seus 
membros: Jos Linhares, (Presidente); Vicente Piragibe, Lafayette Andrada, Miranda Valverde e Hahneman Guimares: 
A Comisso partiu dos princpios gerais e reproduzia os procedimentos do Cdigo de 1932 - exceto no tocante  organizao partidria, acrescentando-lhes dispositivos 
e inovaes agrupados em quatro categorias gerais. 
Primeiro lugar, sobre o registro de Partido: entendia-se que os partidos deveriam apresentar assinaturas de 10.000 (dez mil) eleitores distribudos entre pelo menos 
5 (cinco) estados, nenhum estado com menos 500 (quinhentas) assinaturas, a fim de obterem o competente registro.(Art.109 da Lei eleitoral). Em 1946 Dutra o aumentou 
para 50.000 (cinqenta mil)- decreto-lei n. 8.063, maio de 1946. 
O artigo 114 do Cdigo Eleitoral estabelecia que o Tribunal Superior Eleitoral poderia negar registro a quaisquer partidos que fossem contrrios aos princpios democrticos 
e aos direitos fundamentais do homem, definidos na Constituio. De trinta e um com registro provisrio, quinze foram cancelados. As razes foram bastante variveis. 
S uma vez o artigo foi utilizado de forma ideolgica contra o PCB. O decreto de Dutra que aumentou o nmero de assinaturas permitia, tambm, pelo artigo 26 o cancelamento 
de registro de partido que recebesse orientao poltica ou contribuio em dinheiro do exterior. 

Em segundo lugar, quanto ao registro de candidatos determinava que somente poderiam concorrer candidatos registrados pelos partidos ou alianas de partidos. Um candidato 
poderia concorrer por mais de um partido para os cargos regidos pelo princpio majoritrio, mas s por um partido ou coligao partidria para os cargos regidos 
pelos princpios proporcionais (artigos 39 a 42). Um candidato poderia concorrer simultaneamente para presidente, senador e deputado estadual num mesmo estado ou 
em mais de um Estado. 
Em terceiro lugar, sobre o item da representao era retida na legislao eleitoral de 1945, a dualidade de princpios, majoritrio para os cargos executivos e para 
o Senado, e proporcional para Cmara dos Deputados e para os legislativos estaduais. Na representao proporcional o quociente eleitoral seria determinado pela diviso 
do nmero de votos vlidos, mais votos em branco, pelo nmero de cadeiras a ser preenchido. A representao de cada partido seria obtida dividindo-se a votao partidria 
pelo quociente eleitoral. Os lugares no preenchidos por esse critrio seriam dados ao partido que obtivesse o maior nmero de votos na eleio em vez dos candidatos, 
individualmente, mais votados, como previa o Cdigo de 1932. 
Em quarto lugar, quanto ao alistamento eleitoral e face  precariedade dos recursos disponveis e  lentido do alistamento eleitoral, foi permitido o registro de 
blocos de eleitores com base em listas preparadas por empregadores e agncias do governo: chamado de alistamento ex-officio. Esse sistema foi extinto com o Cdigo 
Eleitoral de 24/07/1950, quando passou a ser exigido o alistamento individual. 

O movimento poltico-militar de 1964, orientado para interromper o longo ciclo Vargas, se colocou em linha de continuidade com o que fora o objetivo de sua interveno, 
isto , 1964 confirma 1937 pelo seu aspecto coercitivo de suas instituies e pelo controle social sobre o conjunto da sociedade: modernizao "por cima". 

Foi com a alterao da Constituio de 1946 que o regime militar fundou os princpios ainda em vigor. A Emenda Constitucional n.  14, de 03/06/1965 criou o Domiclio 
Eleitoral. Determinou que para ser candidato ao cargo de governador e vice-governador teria  data da eleio, pelo menos, quatro anos de domiclio eleitoral no 
Estado. Para os cargos de Prefeito e Vice-Prefeito o prazo era menor: pelos menos, dois anos de domiclio eleitoral no Municpio. 

Para Cmara dos Deputados e Senado Federal e Assemblias Legislativas o candidato tinha que ter, pelo menos, quatro anos de domiclio eleitoral no Estado. 

Mais adiante, a Junta Militar, em 1969, modificou a prpria Constituio do regime de 1964 e criou novos mecanismos de controle. Com a Emenda Constitucional n 1 
de 17/10/1969 determinou que a Lei Complementar estabelecer os casos de inelegibilidade e os prazos, visando a preservar: a moralidade para o exerccio do mandato, 
a obrigatoriedade de domiclio eleitoral no Estado ou no municpio por prazo entre um e dois anos, fixado conforme a natureza do mandato ou funo. Determinou que 
a organizao, o funcionamento e a extino dos partidos polticos seriam regulados por Lei Federal, observados os seguintes princpios: exigncia de cinco por cento 
do eleitorado que haja votado na ltima eleio geral para a Cmara dos Deputados, distribudos, pelo menos, em sete Estados, com o mnimo de sete por cento em cada 
um deles e a proibio de coligaes partidrias. Tambm, fundava o principio da fidelidade partidria, quando decreta que perder o mandato no Senado Federal, na 
Cmara dos Deputados, nas Assemblias Legislativas e nas Cmaras Municipais quem, por atitudes ou pelo voto, se opuser s diretrizes legitimamente estabelecidas 
pelos rgos de direo partidria ou deixar o partido sob cuja legenda foi eleito. A perda do mandato ser decretada pela Justia Eleitoral, mediante representao 
do partido, assegurado o direito de ampla defesa. 

No  por acaso que a atual discusso de reforma poltico partidria e eleitoral se orienta no sentido de interromper o curso da comunicao entre a democracia poltica 
e os processos de democratizao social, iniciado com o fim do regime militar, com a concepo de racionalizar a participao poltica da sociedade civil. E, nesse 
caso, permanece como continuidade da "Era Vargas" e da "Era Militar": administrar "por cima", seletivamente, o ingresso  cidadania, em uma democracia poltica entregue 
 "razo sensata dos ilustrados". O lamentvel  que essa idia  compartilhada, tambm, pelo iluminismo democrtico e no campo da esquerda. 

Concluindo, no seria muito relembrar que Gramsci sublinhava o perigo de transformar a "revoluo passiva" em programa, porque a maneira dos atores representar um 
papel geral do problema, pode levar a um fatalismo. 

(*) Gilvan Cavalcanti de Melo, pernambucano, 69 anos, membro do Diretrio Nacional do PPS 




Brizola e a "Legalidade"
Pronunciamento do governador Leonel Brizola, transmitido pela Rdio Guaba, direto da sede do governo, o Palcio Piratini, em Porto Alegre, no dia 28 de agosto de 
1961) 

"Peo a vossa ateno para as comunicaes que vou fazer. Muita ateno. Ateno, povo de Porto Alegre! Ateno Rio Grande do Sul! Ateno Brasil! Ateno meus patrcios, 
democratas e independentes, ateno para estas minhas palavras! 

"Em primeiro lugar, nenhuma escola deve funcionar em Porto Alegre. Fechem todas as escolas. Se alguma estiver aberta, fechem e mandem as crianas para junto de seus 
pais. Tudo em ordem. Tudo em calma. Tudo com serenidade e frieza. Mas mandem as crianas para casa. Quanto ao trabalho,  uma iniciativa que cada um deve tomar, 
de acordo com o que julgar conveniente. 

"Quanto s reparties pblicas estaduais, nada h de anormal. Os servios pblicos tero o seu incio normal, e os funcionrios devem comparecer como habitualmente, 
muito embora o Estado tolerar qualquer falta que, porventura, se verificar no dia de hoje.. 

"Tenho os fatos mais graves a revelar" 

"Hoje, nesta minha alocuo, tenho os fatos mais graves a revelar. O Palcio Piratini, meus patrcios, est aqui transformado em uma cidadela, que h de ser herica, 
uma cidadela da liberdade, dos direitos humanos, uma cidadela da civilizao, da ordem jurdica, uma cidadela contra a violncia, contra o absolutismo, contra os 
atos dos senhores, dos prepotentes. No Palcio Piratini, alm da minha famlia e de alguns servidores civis e militares do meu gabinete, h um nmero bastante aprecivel, 
mas apenas daqueles que ns julgamos indispensveis ao funcionamento dos servios da sede do Governo. Mas todos os que aqui se encontram esto de livre e espontnea 
vontade, como tambm grande nmero de amigos que aqui passou a noite conosco e retirou-se, hoje, por nossa imposio. 

"Aqui se encontram os contingentes que julgamos necessrios. da gloriosa Brigada Militar o Regimento Bento Gonalves e outras foras. Reunimos aqui o armamento de 
que dispnhamos. No  muito, mas tambm no  pouco para aqui ficarmos preocupados frente aos acontecimentos. Queria que os meus patrcios do Rio Grande e toda 
a populao de Porto Alegre, todos os meus conterrneos do Brasil, todos os soldados da minha terra querida pudessem ver com seus olhos o espetculo que se oferece. 

"Aqui nos encontramos e falamos por esta estao de rdio, que foi requisitada para o servio de comunicao, a fim de manter a populao informada e, com isso, 
auxiliar a paz e a manuteno da ordem. Falamos aqui do servio de imprensa. Estamos rodeados por jornalistas, que teimam, tambm, em no se retirar, pedindo armas 
e elementos necessrios para que cada um tenha oportunidade de ser tambm um voluntrio, em defesa da legalidade. 

"No nos submeteremos a nenhum golpe" 

"Esta  a situao! Fatos os mais srios quero levar ao conhecimento dos meus patrcios de todo o Pas, da Amrica Latina e de todo o mundo. Primeiro: ao me sentar 
aqui, vindo diretamente da residncia, onde me encontrava com minha famlia, acabava de receber a comunicao de que o ilustre General Machado Lopes, soldado do 
qual tenho a melhor impresso, me solicitou audincia para um entendimento. J transmiti, aqui mesmo, antes de iniciar minha palestra, que logo a seguir receberei 
S. Exa. com muito prazer, porque a discusso e o exame dos problemas  o meio que os homens civilizados utilizam para solucionar os problemas e as crises. Mas pode 
ser que essa palestra no signifique uma simples visita de amigo. Que essa palestra no seja uma aliana entre o poder militar e o poder civil, para a defesa da 
ordem constitucional, do direito e da paz como se impe neste momento, como defesa do povo, dos que trabalham e dos que produzem, dos estudantes e dos professores, 
dos juzes e dos agricultores, da famlia. 

"Todos, at as nossas crianas desejam que o poder militar e o poder civil se identifiquem nesta hora para vivermos na legalidade. Pode significar, tambm, uma comunicao 
ao Governo do Estado da sua deposio. Quero vos dizer que ser possvel que eu no tenha oportunidade de falar-vos mais, que eu nem deste servio possa me dirigir 
mais, comunicando esclarecimentos  populao. Porque  natural que, se ocorrer a eventualidade do ultimato, ocorrero, tambm, conseqncias muito srias. Porque 
ns no nos submeteremos a nenhum golpe, a nenhuma resoluo arbitrria. No pretendemos nos submeter. Que nos esmaguem! Que nos destruam! Que nos chacinem, neste 
Palcio! Chacinado estar o Brasil com a imposio de uma ditadura contra a vontade de seu povo. Esta rdio ser silenciada tanto aqui como nos transmissores. O 
certo porm  que no ser silenciada sem balas. Tanto aqui como nos transmissores estamos guardados por fortes contingentes da Brigada Militar. 

"Assim, meus amigos, meus conterrneos e patrcios ficaro sabendo por que esta rdio silenciou. Foi porque ela foi atingida pela destruio e porque isso ocorreu 
contra a nossa vontade. E quero vos dizer por que penso que chegamos a viver horas decisivas. 

"Os americanos, que espoliam e mantm nossa ptria na misria" 

"Muita ateno, meus conterrneos, para esta comunicao. Ontem  noite o Sr. Ministro da Guerra, Marechal Odlio Denys, soldado no fim de sua carreira, com mais 
de 70 anos de idade, e que est adotando decises das mais graves, as mais desatinadas, declarou atravs do 'Reprter Esso' que no concorda com a posse do Sr. Joo 
Goulart, que no concorda que o Presidente constitucional do Brasil exera suas funes legais! Porque, diz ele numa argumentao pueril e inaceitvel, isso significa 
uma opo entre comunismo ou no. Isso  pueril, meus conterrneos. Isso  pueril, meus patrcios! No nos encontramos nesse dilema. Que vo essas ou aquelas doutrinas 
para onde quiserem. No nos encontramos entre uma submisso  Unio Sovitica ou aos Estados Unidos. Tenho uma posio inequvoca sobre isto. Mas tenho aquilo que 
falta a muitos anticomunistas exaltados deste Pais, que  a coragem de dizer que os Estados Unidos da Amrica, protegendo seus monoplios e trustes, vo espoliando 
e explorando esta Nao sofrida e miserabilizada. Penso com independncia. No penso ao lado dos russos ou dos americanos. Penso pelo Brasil e pela Repblica. Queremos 
um Brasil forte e independente. No um Brasil escravo dos militaristas e dos trustes e monoplios norte-americanos Nada temos com os russos. Mas nada temos tambm 
com os americanos, que espoliam e mantm nossa ptria na pobreza, no analfabetismo e na misria. 

"Esses que muito elogiam a estratgia norte-americana querem submeter nosso povo a esse processo de esmagamento. Mas isso foi dito pelo Ministro da Guerra. Isso 
quer dizer que S. Exa. tomar todas as medidas contra o Rio Grande. Estou informado de que todos os aeroportos do Brasil, onde pousam avies internacionais de grande 
porte, esto guarnecidos e com ordem de prender o Sr. Joo Goulart no momento da descida. H pouco falei, pelo telefone, com o Sr. Joo Goulart em Paris, e disse 
a ele que todas as nossas palestras de ontem foram censuradas. Tenho provas. Censuradas nos seus efeitos, mas a rigor. A companhia norte-americana dos telefones 
deve ter gravado e transmitido os termos de nossas conversas para essas foras de segurana. Hoje eu disse ao Sr. Joo Goulart: 'Decides de acordo com o que julgares 
conveniente. Ou deves voar, como eu aconselho, para Braslia, ou para um ponto qualquer da Amrica Latina. A deciso  tua! Deves vir diretamente a Braslia, correr 
o risco e pagar para ver. Vem. Toma um dos teus filhos nos braos. Desce sem revlver na cintura, como um homem civilizado. Vem como para um Pas culto e politizado 
como  o Brasil e no como se viesse para uma republiqueta, onde dominam os caudilhos, as oligarquias que se consideram todo-poderosas. Voa para o Uruguai, ento, 
essa cidadela da liberdade, aqui pertinho de ns, e aqui traa os teus planos, como julgares conveniente'". 

"Ento, o Exrcito  agente da desordem, soldados do Brasil?" 

"Vejam, meus conterrneos, se no  loucura a deciso do Ministro da Guerra. Vejam, soldados do Brasil, soldados do III Exrcito! Comandante, General Machado Lopes! 
Oficiais, sargentos e praas do III Exrcito, guardies da ordem da nossa Ptria. Vejam se no  loucura. Esse homem est doente! Esse homem est sofrendo de arteriosclerose 
ou outra coisa. A atitude do Marechal Odilio Denys  uma atitude contra o sentimento da Nao. Contra os estudantes e intelectuais, contra o povo, contra os trabalhadores, 
contra os professores, juzes, contra a Igreja. Ainda h pouco, conversando com S. Ex. Rev. Arcebispo D. Vicente Scherer, recebi a comunicao de que todos os 
cardeais do Brasil haviam decidido lanar proclamao pela paz, pela ordem legal, pela posse a quem constitucionalmente cabe governar o Brasil, pelo voto legtimo 
de seu povo. Essa proclamao est em curso pelo Pas. As Igrejas protestantes, todas as seitas religiosas clamam por paz, pela ordem legal. No  a ordem do cemitrio 
ou a ordem dos bandidos. Queremos ordem civilizada, ordem jurdica, a ordem do respeito humano.  isso. Vejam se no  desatino. Vejam se no  loucura o que vo 
fazer. Podem nos esmagar, num dado momento. Jogaro o Pas no caos. Ningum os respeitar. Ningum ter confiana nessa autoridade que ser imposta, delegada de 
uma ditadura. Ningum impedir que este Pas, por todos os seus meios, se levante lutando pelo poder. Nas cidades do interior surgiro as guerrilhas para defesa 
da honra e da dignidade, contra o que um louco e desatinado est querendo impor  famlia brasileira. Mas confio, ainda, que um homem como o General Machado Lopes, 
que  soldado, um homem que vive de seus deveres, como centenas, milhares de oficiais do Exrcito, como esta sargentada humilde, sabe que isso  uma loucura e um 
desatino e que cumpre salvar nossa Ptria. Tenho motivos para vos falar desta forma, vivendo a emoo deste momento, que talvez seja, para mim, a ltima oportunidade 
de me dirigir aos meus conterrneos. No aceitarei qualquer imposio. 

"Desde ontem organizamos um servio de captao de notcias por todo o territrio nacional.  uma rede de radioamadores, num servio organizado. Passamos a captar, 
aqui, as mensagens trocadas, mesmo em cdigo e por teletipos, entre o III Exrcito e o Ministrio da Guerra. As mais graves revelaes quero vos transmitir. Ontem, 
por exemplo - vou ler rapidamente, porque talvez isso provoque a destruio desta rdio -, o Ministro da Guerra considerava que a preservao da ordem "s interessa 
ao Governador Brizola". Ento, o Exrcito  agente da desordem, soldados do Brasil?! E outra prova da loucura! Diz o texto: " necessrio a firmeza do III Exrcito 
para que no cresa a fora do inimigo potencial". 

"Eu sou inimigo, meus conterrneos?! Estou sendo considerado inimigo, meus patrcios, quando s o que queremos  ordem e paz. Assim como esta, uma srie de outras 
rdios foi captada at no Estado do Paran, e aqui as recebemos por telefone, de toda a parte. Mais de cem pessoas telefonaram e confirmaram. Vejam o que diz o General 
Orlando Geisel, de ordem do Marechal Odlio Denys, ao III Exrcito: "Deve o Comandante do III Exrcito impedir a ao que vem desenvolvendo o Governador Brizola"; 
"deve promover o deslocamento de tropas e outras medidas que tratam de restituir o respeito ao Exrcito"; "o III Exrcito deve agir com a mxima urgncia e presteza"; 
"faa convergir contra Porto Alegre toda a tropa do Rio Grande do Sul que julgar conveniente"; "a Aeronutica deve realizar o bombardeio, se for necessrio"; "est 
a caminho do Rio Grande uma fora-tarefa da Marinha de Guerra", e "mande dizer qual o reforo de que precisa". Diz mais o General Geisel: "Insisto que a gravidade 
da situao nacional decorre, ainda, da; situao do Rio Grande do Sul, por no terem, ainda, sido cumpridas as ordens enviadas para coibir ao do Governador Brizola" 

"Aqui ficaremos at o fim. Podem atirar" 

"Era isto, meus conterrneos. Estamos aqui prestes a sofrer a destruio. De vem convergir sobre ns foras militares para nos destruir, segundo determinao do 
Ministro da Guerra. Mas tenho confiana no cumprimento do dever dos soldados, oficiais e sargentos, especialmente do General Machado Lopes, que, esperamos, no decepcionar 
a opinio gacha. Assuma, aqui, o papel histrico que lhe cabe. Imponha ordem neste Pas. Que no se intimide ante os atos de banditismo e vandalismo, ante esse 
crime contra a populao civil, contra as autoridades.  uma loucura. 

"Povo de Porto Alegre, meus amigos do Rio Grande do Sul! No desejo sacrificar ningum, mas venham para a frente deste Palcio, numa demonstrao de protesto contra 
essa loucura e esse desatino. Venham, e se eles quiserem cometer essa chacina, retirem-se, mas eu no me retirarei e aqui ficarei at o fim. Poderei ser esmagado. 
Poderei ser destrudo. Poderei ser morto. Eu a minha esposa e muitos amigos civis e militares do Rio Grande do Sul. No importa. Ficar o nosso protesto, lavando 
a honra desta Nao. Aqui resistiremos at o fim. A morte  melhor do que vida sem honra, sem dignidade e sem glria. Aqui ficaremos at o fim. Podem atirar. Que 
decolem os jatos! Que atirem os armamentos que tiverem comprado  custa da fome e do sacrifcio do povo! Joguem essas armas contra este povo. J fomos dominados 
pelos trustes e monoplios norte-americanos. Estaremos aqui para morrer, se necessrio. Um dia. nossos filhos e irmos faro a independncia do nosso povo! Um abrao, 
meu povo querido! Se no puder falar mais, ser porque no me foi possvel! Todos sabem o que estou fazendo! Adeus, meu Rio Grande querido! Pode ser este, realmente, 
o nosso adeus! Mas aqui estaremos para cumprir o nosso dever". 

Radio Guaba 




Carta Testamento de Vargas
Carta Testamento
Getlio Vargas

Mais uma vez as foras e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. No me acusam, insultam; no me combatem, caluniam, e 
no me do o direito de defesa.
Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ao, para que eu no continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino 
que me  imposto. Depois de decnios de domnio e espoliao dos grupos econmicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revoluo e venci. Iniciei o 
trabalho de libertao e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braos do povo. A campanha subterrnea dos grupos internacionais 
aliou-se  dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinrios foi detida no Congresso. Contra a justia da 
reviso do salrio mnimo se desencadearam os dios. Quis criar liberdade nacional na potencializao das nossas riquezas atravs da Petrobrs e, mal comea esta 
a funcionar, a onda de agitao se avoluma. A Eletrobrs foi obstaculada at o desespero. No querem que o trabalhador seja livre.
No querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionria que destrua os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras 
alcanavam at 500% ao ano. Nas declaraes de valores do que importvamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhes de dlares por ano. Veio a crise do 
caf, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preo e a resposta foi uma violenta presso sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados 
a ceder.
Tenho lutado ms a ms, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma presso constante, incessante, tudo suportando em silncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, 
para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a no ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de algum, querem continuar 
sugando o povo brasileiro, eu ofereo em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater  vossa porta, sentireis em vosso 
peito a energia para a luta por vs e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a fora para a reao. Meu sacrifcio vos manter unidos e 
meu nome ser a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue ser uma chama imortal na vossa conscincia e manter a vibrao sagrada para a resistncia. Ao dio 
respondo com o
perdo.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitria. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo no 
mais ser escravo de ningum. Meu sacrifcio ficar para sempre em sua alma e meu sangue ser o preo do seu resgate. Lutei contra a espoliao do Brasil. Lutei 
contra a espoliao do povo. Tenho lutado de peito aberto. O dio, as infmias, a calnia no abateram meu nimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereo a minha 
morte.
Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na Histria.

Crise de 1929 e Revoluo de 1930
Anbal de Almeida Fernandes, 
Agosto, 2006. 

A famosa crise do caf que faz parte da histria de tantas famlias paulistas que sofreram suas duras conseqncias comea na realidade em 1920, devido ao contnuo, 
descontrolado e excessivo aumento da produo do caf cuja safra chegava a espantosos 21 milhes de sacas para um consumo mundial de 22 milhes. 
J havia uma srie de falncias e concordatas muito antes da quebra de Wall Street em Outubro de 1929, assim sendo, s em Setembro de 1929 o Correio da Manh anunciava 
72 falncias e concordatas! 
1927: O Brasil exportou 15.115.000 de sacas de caf. 
1928: Houve mais uma enorme safra porem a exportao caiu para 13.881.000 sacas (menos 11%) j que os EUA, Frana, Itlia, Holanda e Alemanha, que compravam 84% 
da produo brasileira, estavam comprando de outros pases irritados com o Brasil, pois a nossa fama de exportador de caf era pssima uma vez que aqui se misturavam 
pedras, terra e gravetos para aumentar o peso das sacas, alem de incluir caf de qualidade inferior adulterando o produto final. 
Para piorar o contexto, em Outubro de 1929 os fazendeiros ainda estavam exportando a safra de 1927!! e a safra de 1928 estava toda ela retida nos armazns de valorizao 
de caf que eram gerenciados pelo Instituto do Caf que fora criado em So Paulo para apoiar financeiramente os fazendeiros paulistas com auxlio do governo federal. 
Em Outubro de 1929 o Herald Tribune informava que 2/3 do caf consumido no mundo inteiro era produzido em So Paulo e que o caf representava  das exportaes brasileiras 
e, por conta da crise mundial, o pas estava em precria situao financeira. 
Previa-se um dficit de 120.000 contos de ris no oramento de 1930. 
A falta de planejamento e controle sobre a produo do caf era total e suicida, pois o consumo mundial era de 22 milhes de sacas e o Brasil sozinho, produzia essa 
quantidade sem mercado comprador determinado. 
1929: a safra projetada para 13,7 milhes de sacas chega a mais de 21 milhes e a exportao diminua cada vez mais! 
A crise nos EUA comeou a 19/10/29 com a dificuldade de se levantar meros US$ 100.000 em fundos do governo americano. A crise arrastou milhes de pessoas na chamada 
matana dos inocentes (a famosa quinta feira negra de 24/10/29), onde pessoas ingnuas perderam tudo o que possuam j que, em poucas horas, 12.894.650 aes trocaram 
de dono provocando uma das quedas de Bolsa de Valores mais drsticas da histria e provocando a misria de milhares de famlias nos EUA. 
Em Outubro de 1929 o governo federal brasileiro pretendia emprestar US$ 50 milhes para permitir que o Instituto do Caf ajudasse os fazendeiros, s que o governo 
americano recusou o emprstimo, pois no havia mais dinheiro disponvel nos EUA para emprstimo externo e a crise de Wall Street alastrou-se para o mundo. 
Um emprstimo de emergncia de US$ 10 milhes da Schroeder and Company foi feito para alavancar o banco do Estado de So Paulo tendo como nico motivo a necessidade 
de financiar o Instituto do Caf de So Paulo e tentar evitar a quebradeira geral dos fazendeiros paulistas. 
A queda das exportaes do caf diminuiu as importaes de outros produtos e os negcios encolhem e provocam o fechamento de empresas. O comrcio e a industria diminuem 
o movimento com a recesso e como no havia dinheiro na praa as fabricas quebram gerando um enorme desemprego. 
O achatamento dos negcios provoca a runa, a desonra e a desgraa das famlias, outrora abastadas, e muitos fazendeiros se suicidam ao se verem na misria, alguns 
em desespero chegam a recorrer ao jogo para tentar salvar o patrimnio do naufrgio final. 
A derrocada financeira que devasta os EUA, Europa e Amrica Latina piora todo dia gerando o desemprego e a misria e preparando o cenrio para a 2 guerra mundial. 
No Brasil:aparecem notcias de falncias, concordatas e tragdias familiares: 

- No Rio a tradicionalssima firma Oswaldo Tardim & Cia quebra com um passivo de 3.359.534$900, que era uma enorme quantia para a poca! 
- Em So Paulo a populao est estarrecida com a tragdia do palacete da rua Piau no bairro de Higienpolis onde o empresrio Abelardo Laudel de Moura de 28 anos, 
afogado em dvidas se arma com uma navalha e tenta matar a mulher, que consegue escapar, ele degola o filho de 2 anos e a filha e, em seguida, se suicida! 
- No interior o caf  queimado, pois no h esperana de venda, nem h como arcar com o alto custo da estocagem do caf de vrias safras que no conseguem mercado 
consumidor e os grandes fazendeiros naufragam em dvidas e tem que vender as jias de famlia para sobreviver. 

 
Washington Luis 

Esta crise econmica repercute na disputa presidencial j em conflito com a disposio de Washington Luis de romper o Pacto de Ouro Fino celebrado em 1912 que fixara 
a alternncia de So Paulo e Minas Gerais no poder governamental, com a famosa poltica caf com leite ao insistir no nome de seu afilhado poltico Jlio Prestes 
de So Paulo em detrimento do mineiro Antonio Carlos que deveria ser o prximo presidente pelo Pacto. 
A sbita fraqueza econmica de So Paulo  o fato gerador para alicerar a ambio poltica de Getlio Vargas que mantm, dissimuladamente, a aparncia de aliado 
confivel de Washington Luis de quem, alis, fora Ministro da Fazenda desde o incio do governo em novembro de 1926 at o final de 1927 quando Vargas sai do Ministrio 
para assumir o governo do Rio Grande do Sul. 
Algumas foras polticas vm em Vargas a opo para se contrapor a Washington Lus e  poltica caf com leite, opo que evolui no meio efervescente das lutas polticas 
e interesses de vrios personagens como Borges de Medeiros, o Papa Verde, os tenentes de 1922 e 1924 (Siqueira Campos, Juarez Tvora, Cordeiro de Farias), o que 
restara da Coluna Prestes com a faco marxista do Luis Carlos Prestes e Maurcio de Lacerda, os comunistas do Paulo de Lacerda, at culminar com a deposio de 
Washington Luis a 24/10/1930 que acaba com a hegemonia de So Paulo e Minas Gerais e promover a instalao de uma nova sociedade no Brasil. 
1930: a instalao do governo Vargas acaba com o poder secular de So Paulo e Minas Gerais na poltica brasileira e muda radicalmente a sociedade constituda pelas 
grandes famlias agrrias de So Paulo como fonte de poder poltico e econmico. Getlio  figurinha carimbada na histria do Brasil; sua lembrana tanto serve para 
os que o odiavam como para os que at hoje o veneram. Para os primeiros, foi o "populista" que produziu um "mar de lama"; para os outros, foi o estadista que implantou 
um novo modelo de desenvolvimento que, apesar de seus defeitos, perdurou por mais de 50 anos, que bem ou mal incluiu  sociedade do sculo 20 as massas pobres e 
sem direitos. 
Resenha Histrica: para entender esta dana do poder no Brasil vamos voltar ao sec. XVII com o poder nas mos dos engenhos de acar do nordeste que abasteciam o 
mundo, ao sec. XVIII com o poder nas mos dos mineradores de ouro de Minas Gerais que reconstruram Lisboa e enriqueceram a Inglaterra, ao sec. XIX com o poder da 
monocultura do caf fazendo os riqussimos bares de caf do Rio de Janeiro sustentarem o Imprio at ter seu poder anulado pela exausto das terras e pela abolio 
da escravido, ao sec. XX com o poder do caf de So Paulo e sua luxuosa belle poque ainda ligada ao poder agrrio e chegando aos novos donos do poder a partir 
de 1930. 
Resumo: a partir de Vargas, (que  uma conseqncia da Crise de 1929), o contexto social brasileiro se desloca dos grandes fazendeiros e sua estrutura social agrria 
e se muda para os industriais e comerciantes provenientes de uma mescla de raas/culturas/tradies diferentes, (onde predominam majoritariamente os italianos e 
os rabes), que se instalam como os novos mandatrios do poder e do dinheiro e moldam a dinmica social urbana da nova sociedade onde a nica linguagem sem fronteiras, 
que todos entendem,  o dinheiro. Essa nova sociedade que se forma no pas, e no mundo, segue em uma transformao acelerada at eclodir a 2 guerra mundial. Porm 
h que se observar que, em todas estas transformaes sociais seculares se mantm o conceito da permanncia histrica das elites no comando das mudanas sociais 
sempre manobrando em proveito prprio. 

Fontes pesquisadas para estruturar este trabalho: 
Histrias de famlia, fonte primria. 
1930, Os rfos da Revoluo, Domingos Meirelles, Editora Record, 2006, que  a base de informao dos dados tcnicos que quantificam o trabalho. 
Grupos qualitativos e disputa sem qualidade, artigo de Carlos Alberto de Melo, Cientista Poltico, doutor pela PUC-SP, Professor de Sociologia e Poltica do Ibmec 
So Paulo. 




Lampio, bandido de marketing
Urariano Mota 

Nos ltimos 70 anos a imagem de Lampio tem sofrido transformaes maiores que as suas proezas. Antes de ser vtima do covarde massacre de Angicos, em 1938, na lngua 
da imprensa ele oscilou entre o Terror do Nordeste e o Rei do Cangao. O que no queria dizer, j ento, mesmo quando era o "rei", uma imagem positiva, porque o 
seu reinado era o cangao, a vida marginal dos cangaceiros, os bandidos do serto nordestino. Depois, em anos de ascenso da democracia no Brasil, a sua imagem viajou 
do ponto de injustiado, do rebelde sem partido, de um aliado, portanto, at o ponto do marginal que serviu ao poder de atraso dos "coronis", os senhores feudais 
do Nordeste. Em 1978, com a cara de couro curtido de macho, serviu de contraponto e ironia para um jornal dirigido ao pblico homossexual, O Lampio da Esquina. 
Nos ltimos tempos, em lugar do homem brbaro e brutal, ganhou refinamento e sensibilidade em novas interpretaes, pois chegou a beber usque White Horse e a se 
perfumar com exagero, e sabe-se l como a partir disso ele tenha ficado menos brbaro, mais sensvel... Mas nada talvez se compare a sua ltima releitura, ou rara 
e original interpretao. Com a palavra, uma reportagem da Folha de So Paulo de 2.9.2006. 

A esttica do cangao 
"Historiadora v nas fotos de cangaceiros feitas por Benjamin Abraho e outros a gnese da manipulao da mdia por criminosos ...", isto por si s nos conduziria 
de imediato a um intervalo indispensvel para respirar, esfregar os olhos e suspirar: foi isto mesmo o que li? Foi. Manipulao da mdia por criminosos, sim, no, 
 claro, isto no se refere aos donos da mdia no Brasil de 2006. Mas no devemos realizar o paradoxo do preconceituoso por experincia. Continuemos. 
"A literatura de cordel e o cinema novo heroificaram o cangao e seus lderes mais notrios, Lampio e Corisco. Bandidos sanginrios, eles souberam usar, antes 
das letras e do celulide, uma outra mdia para se autopromover e intimidar. Nos anos 30, Lampio deixou que o mascate libans Benjamin Abraho fotografasse a si 
e a seu bando, uma histria j contada pelos cineastas Paulo Caldas e Lrio Ferreira no longa 'Baile Perfumado' ". Expresso brbara posta de lado, porque um esforo 
de leitura j nos fez entender que "antes das letras e do celulide" significa "antes da glorificao, dos bandidos sanguinrios, na literatura de cordel - as letras 
- e no cinema novo - o celulide", assim como tambm ser bom olvidar os magnficos bandidos que usam as letras e o celulide post mortem, e, de passagem, nada lembrar 
da altura de Corisco na frase, um dos lderes mais notrios do cangao, posto que alcanou com a devida permisso de Antonio Silvino, em suma, coisas menores como 
estas postas  parte,  de se notar a impropriedade que faz da permisso para ser fotografado e filmado uma autopromoo calculada e pensada. Mas no se deve usar 
de ps-conceito, ainda que depois destas linhas. Adiante. 
"Aqueles registros de corpos paramentados para ao ou de cabeas cortadas e exibidas como numa feira de horrores reaparecem agora reunidos no livro 'Cangaceiros', 
que a editora Terceiro Nome acaba de lanar. As fotos foram coletadas pela historiadora da arte lise Jasmin, 39, francesa, para uma tese de doutorado na Sorbonne, 
em Paris, sobre a construo do mito Lampio. Alm dos retratos de Abraho, o livro traz registros de outros fotgrafos, recolhidos em So Paulo, Rio, Recife, Fortaleza, 
Aracaju e Macei, imagens na fronteira entre o fotojornalismo e a propaganda". 
Observem e mirem bem, j que o texto remete a fotografia. Notem que pouco importa ao senhor reprter a contradio, que dizemos!, a oposio, que escrevemos!, queremos 
dizer, a franca e aberta guerra e aberrao entre o marketing de imagem realizada por bandidos, nunca esquecer o adjetivo, sanguinrios, e a foto de suas prprias 
cabeas cortadas, talvez em um mximo esforo do tudo pela imagem. Pois  to simples o escrever, no ?, corpos paramentados para a ao e cabeas cortadas cabem 
em uma s frase, em uma s linha. Poder-se ia dizer, a favor do texto: menos dureza, por favor, ponha-se no lugar do reprter, porque o reprter, esse pobre homem 
explorado pelo ritmo industrial, pela poltica miservel de salrio dos criminosos donos da imprensa, e, ao ouvir tal considerao, tamanha  a sua fora, como resposta 
nada mais deveria ser escrito. Pero essa desculpa no deve obscurecer o crime. Se permitem uma comparao, digamos de outra maneira. Que os pilotos de avio sejam 
submetidos a um ritmo insano de trabalho  uma injustia muito grande, mas que essa injustia nos leve tambm o nosso corpo, quando cai um avio, isto  mais que 
uma injustia,  um clamoroso crime. H que denunciar e punir, com a mais absoluta urgncia. Por isso mirem como cai o avio. 

A se acreditar no reprter 
O reprter, esse pobre homem explorado, est submetido  ditadura do tempo, que sempre lhe falta,  ditadura do editor, que nunca lhe falta,  ditadura do salrio, 
que muito lhe falta,  ditadura da realidade, que sempre o mata. Sem piedade. Da que nem sempre podemos acreditar no reprter. Mesmo quando ele se levanta da cadeira 
e vai l fora, ao aeroporto, cobrir a chegada do avio, que cai,  sensato no acreditar no nmero de vtimas que ele anuncia. Por vezes ele confunde o nmero do 
vo, o nome da empresa, e, no pensem que  broma, por vezes no se pode nem mesmo ter certeza se o avio caiu. O avio, quem sabe, pode nem sequer ter se erguido 
do solo. Pero h uma coisa que se deve confiar a um reprter. Melhor dizendo, h uma coisa que se deve confiar de um reprter. So as afirmaes do entrevistado. 
Pois foi outro que lhe declarou as linhas, no  mesmo? Se ele no "edita" o que lhe dizem em alto e bom som, deve-se acreditar nas palavras que ele copia sem tirar 
nem pr. Bem sabemos,  claro, que na imprensa brasileira dos ltimos tempos no se deve confiar nem mesmo em afirmaes entre aspas. Mas at mesmo no mtodo arrasador 
de Descartes alguma coisa se salva. Que sejam os smbolos " " a prova ltima de que pensamos. Logo ... 
Existe crdito nas linhas a seguir. At ento, pelo que se escrevia do livro Cangaceiros, da historiadora lise Jasmin, poderia existir alguma dvida sobre o acerto 
do texto na Folha. Dizamo-nos, no, isto no  possvel, ocorre aqui alguma preciosa impreciso. Impossvel que seja assim. No entanto, a se acreditar na cpia 
das declaraes publicadas pelo reprter, mirem. 
"Estas imagens dos bandidos no auge de sua glria e poder, ao lado das fotos com o jogo cnico de suas mortes, fazem parte desta espetacularizao da violncia que 
encontramos nas sociedades modernas.  um fenmeno que vemos se desenvolver especialmente nas grandes cidades atingidas pelo crime organizado. Lampio e seu grupo 
foram os primeiros a se apropriar deste modo de comunicao, a instrumentaliz-lo, para desafiar seus adversrios, impor seu poder e mostrar que seu sistema de valores, 
a vida que levavam, tinha um sentido para eles." (Declarao da historiadora) 
Sabemos todos que alguns intelectuais franceses tm um extraordinrio poder de retrica, a ponto de escreverem um volume inteiro sobre o Nada, com o Ser por acrscimo, 
mas aqui vai um pouco alm o abuso do verbo, do substantivo, do sujeito, do agente. A chamada espetacularizao, neologismo em portugus, mas que bem entendemos 
como uma mistura de especulao com espetacular, esse fazer da violncia um espetculo no foi uma criao dos bandidos sertanejos em 1936. Eles no so os agentes 
do espetculo. As lentes de Benjamin Abraho, que os filmou,  que fazem o espetacular. Em um filme, isto  bsico, o ator no  bem o agente. Quem dirige  quem 
age. Nas imagens os cangaceiros se mostram, se exibem, mas a direo, o agente, est por trs do que eles fazem e encenam. A pedido, deve-se dizer. Diramos at, 
a existncia do espetculo havia sido feita antes por toda a imprensa brasileira. Lampio jamais se declarou ou se julgou o rei do cangao, por exemplo. Isto foi 
uma criao da imprensa e do cinema, nos estdios Vera Cruz. Acompanhem um entrevista de Lampio, que pode ser lida, na ntegra, no stio da sua neta Vera Ferreira, 
no endereo http://www.nordesteweb.com/links4/nelink_0786.htm. "- Desejamos um autgrafo seu, Lampio. 

- Pois no. 

Sentado prximo de uma mesa, o bandido pegou da pena e estacou, embaraado. 

- Que qui escrevo? 
- Eu vou ditar. 

E Lampio escreveu com mos firmes, caligrafia regular. 

'Juazeiro, 6 de maro de 1926 
Para... e o Coronel... 
Lembrana de EU. 
Virgulino Ferreira da Silva. 
Vulgo Lampio'. 

Os outros facnoras observavam-nos, com um misto de simpatia e desconfiana. Ao lado, como um co de fila, velava o homem de maior confiana de Lampio, Sabino Gomes, 
seu lugar-tenente, mal-encarado. 

- verdade, rapazes! Vocs vo ter os nomes publicados nos jornais em letras redondas..." 

Aqui nota-se o homem que se mostra feliz porque vai aparecer em letras redondas. Ele e todo o bando. Na ocasio dessa entrevista, o bandido sanguinrio se encontrava 
no Juazeiro do Norte, no Cear, aonde fora a convite do Padre Ccero, para integrar o Batalho Patritico, nome pomposo da legalidade para combater a Coluna Prestes. 
Fizeram-lhe uma foto nesse dia. Dela, assim declara a historiadora: " a que o personagem aparece pela primeira vez na imprensa, que vemos seu rosto. Parece uma 
verdadeira foto de estdio que se apropriou dos modelos de figurao cinematogrficos da poca. Lembra Rodolfo Valentino". Quem utilizava quem? Quem fazia espetculo 
de quem? 

Cogitamos, logo somos, levados a concluir: em francs o absurdo estpido da retrica soa mais feliz. 

Sous le rgne de Lampio, les cangaceiros ont t les personnages les plus recherchs de tout le Brsil et pourtant ils se sont donns  voir en permanence, manipulant 
habilement les mdias, dfiant le pouvoir et construisant leur lgende. Ils sont les premiers bandits  avoir thtralis leur vie, utilis le moyen de communication 
le plus moderne de l'poque: la photographie 

La Insignia. Brasil, setembro de 2006. 

Nacionalismo e Imperialismo
Desde o incio do sculo XX, a luta pela independncia econmica, pelo direito a um desenvolvimento autnomo, livre das imposies dos grandes grupos de interesses 
multinacionais, deixou marcas profundas na vida da maioria das naes. No Brasil h um caso dessa luta que, na verdade, confunde-se com o surgimento e a evoluo 
da indstria brasileira.  a histria de um dos maiores empresrios brasileiros, Jos Ermrio de Moraes, falecido em 1973, criador do Grupo Votorantim, o maior do 
pas. 

Em 1940, Jos Ermrio decidiu lanar-se no ramo de alumnio, ainda no produzido no pas. No ano seguinte surgia a Companhia Brasileira de Alumnio (CBA) financiada 
com os lucros obtidos em outras empresas de Ermrio de Moraes, principalmente na rea de cimento, setor onde j entrara em atrito com poderosos grupos internacionais. 
Com a CBA, porm, as dificuldades tornaram-se maiores. No se produzia alumnio no pas e as vendas no mercado brasileiro eram controladas por dois gigantes da economia 
internacional; Alcoa (norteamericana) e Alacam (canadense). Essas duas empresas faziam parte do cartel das "seis irms" do alumnio, formado em 1901, quando dividiram 
entre si o controle das jazidas, da produo e do comrcio mundial dese minrio, estratgico na industrializao moderna. 
A primeira grande dificuldade da CBA foi na compra do equipamento para a fbrica. Feito praticamente sob encomenda das "seis irms", Jos Ermrio no conseguiu compr-lo 
em nenhuma das suas montadoras habituais, certamente por boicote daqueles trustes. 
A soluo para o impasse veio com a sorte: na Itlia, os proprietrios de uma instalaes j prontas para uma fbrica de alumnio no tinham recursos para coloc-la 
em funcionamanto. Era a "providncia divina", diria anos depois um bigrafo do empresrio. Junto com o equipamento Jos Ermrio "importou" dois engenheiros italianos, 
para implant-lo no Brasil. 
Os problemas no terminaram ai. A Light, detentora do monoplio de fornecimento de energia eltrica no pas e tambm canadense como a Alcam, recusou-se a fornecer 
energia. "Na poca em que mais precisamos dessa energia, a Light, or razes tremendamente maldosas e com intuitos outros, a recusou (...) e assim tivemos que reconstruir 
ns mesmos as usinas. No fora sua construo (...) e a CBA seria hoje apenas uma empresa fechada", diria anos mais tarde Jos Ermrio de Moraes Filho, um dos herdeiros 
do empresrio. 
Com a recusa da Light, no entanto, Jos Ermrio de Moraes pulou o obstculo com flego suficiente para mais uma proeza: construiu ele prprio sua hidreltrica. E 
continuou a fazer usinas, tornando o seu grupo, em 1984, o maior produtor privado de energia eltrica do pas. 
Em 1949, finalmente, a CBA comeou a ser montada. Seis anos depois, em 1955, entra em funcionamento. 
Derrotadas nas primeiras batalhas, as "duas irms" do alumnio voltariam a carga. Em 1951, a Alcam passou a produzir alumnio no Brasil, inicialmente com poucos 
investimentos. Acelerou sua produo, porm, para acompanhar a CBA. A Alcoa demorou mais: estabeleceu-se com grande investimento de capital em 1970 

A instalao da CBA foi a consolidao do imprio Votorantim. A histria do grupo, porm, comea em 1924, quando o pernambucano Jos Ermrio de Moraes assumiu a 
administrao de uma fbrica de tecidos, ento de propriedade de seu futuro sogro, Antnio Pereira Igncio, um imigrante portugus. A fbrica Votorantim havia sido 
montada em 1904 pelo Banco Unio de So Paulo, que, em 1890, comprara o terreno na cidade paulista de Sorocaba. Nessa poca, o ministro da fazenda Rui Barbosa, colocou 
em prtica um sistema de financiamento que permitiu a estabelecimentos bancrios, como o Banco Unio, emitir dinheiro contra certas garantias. Rui imaginava com 
isso ajudar no financiamento da nascente indstria nacional. Na crise de 1917 porm, o Unio foi a falncia e no ano seguinte, a fbrica foi vendida ao imigrante 
portugus. 
No princpio da dcada de 30, a Votorantin restringia-se ainda a indstria txtil. Era uma pequena empresa. Tinha apenas um modesto escritrio em So Paulo. A partir 
da comea a diversificar seus produtos, com base principalmente na poltica de substituies de importaes do Estado brasileiro, adotada devido a crise de 1929, 
quando o sistema financeiro internacional estava fechado. A Votorantin, ento, expandiu seus negcios, reinvestiu lucros. Os lucros nos tecidos pagaram o investimento 
em um novo ramo, o cimento, em 1936. No final dos anos 30, novos reinvestimentos permitem o ingresso tambm nos setores de qumica, siderurgia e vrios outros. 
Durante a Segunda Guerra Mundial, h novo prosseguimento da poltica de substituies de importaes com o enfraquecimento da dominao internacional. A Votorantin 
ingressa, ento, nos setores de mecnica e de mquinas, como a metalrgica Atlas, montada em So Paulo, em 1944, que acabou produzindo equipamentos para acionar 
as outras indstrias 
A estratgia de independncia permitiu  Votorantin enfrentar com relativo sucesso um obstculo fundamental: a transferncia de tecnologia, uma das mercadorias mais 
cartelizadas e um dos esteios de apoio da dominao econmica.para tornar-se o primeiro e nico produtor nacional de nquel eletroltico - outro setor estratgico 
onde a empresa penetrou nos anos 50 - precisou trocar o petrleo por carvo vegetal, muito mais barato e mais acessvel. Na Companhia Mineradora de Metais, criou-se 
ainda uma tecnologia de carvo vegetal para o zinco que  a nica no mundo. A matria-prima para esse combustvel exigiu investimentos em reflorestamento. A Votorantin 
tinha, nos anos 80, cerca de 200 milhes de rvores plantadas. 
Desde o incio do Centro das Indstrias do Estado de So Paulo (CIESP), Jos Ermrio participou ativamente da poltica empresarial. Fez parte de sua primeira diretoria, 
em 1928, ao lado do conde Francisco Matarazzo, Jorge Street e outros grandes empresrios brasileiros. Na dcada de 60,  atrado para a poltica partidria. Torna-se 
membro do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Em 1962, elegeu-se senador por Pernambuco. Em 1963, participou brevemente do governo de Joo Goulart, dirigindo o 
Ministrio da Agricultura. 
Por seu passado de luta, Jos Ermrio de Moraes no teria boas relaes com o regime ps 64, quando ruram as conquistas do passado, principalmente com relao  
dominao externa da economia brasileira. sua tradio foi apenas parcialmente seguida pelos filhos. Antnio Ermrio de Moraes, o mais famoso deles,  considerado 
a maior liderana entre os empresrios brasileiros, mas no se dedica a poltica empresarial aberta: no se candidata  Federao das Indstrias; dedica-se antes 
 beneficncia. Adota, contudo, certo estilo oposicionista, que lembra o pai. Na campanha eleitoral de 1984 atacou abertamente o candidato presidencial mais direitista, 
Paulo Salim Maluf. 

J seu irmo, Jos Ermrio de Moraes Filho, tem posio oposta. O estudioso americano Andr Dreyfuss o incluiu na lista dos muitos industriais brasileiros que colaboraram 
com o IBAD (Instituto Brasileiro de Ao Democrtica), organizao reacionria e pr americana na poca do golpe. Em 1984 Jos Ermrio apoiou o candidato direitista: 
Maluf. Seu pai, no entanto, combateu ativimente a inclinaes antinacionalistas adotadas pelo regime implantado em 1964. Denunciou veementemente a derrubada, em 
1966, da lei que protegia as reservas minerais. Alertou em 1965, para a ameaa do endividamento externo: "O pas precisa examinar com todo o cuidado o assunto. Se 
no o fizer, dentro em pouco estar com suas dvidas aumentadas de tal forma que no ter recursos para pagar os juros enm os dividendos do investidor estrangeiro." 
Em 1984 - quando o pas passou a trabalhar quase que apenas para pagar os juros e os lucros dos emprstimos e investimentos estrangeiros no Brasil -, quem se lembrasse 
desse discurso o acharia proftico 

Esse texto foi publicado em Retratos do Brasil, pginas 83 e 84, da Editora Poltica, em 1985, publicao dirigida por Mino Carta. Seu ttulo original  "Ermrio 
e as seis irms" 

O Brasil na II Guerra Mundial
Desde o incio da Segunda Guerra Mundial, a ideologia do Estado Novo, implantado por Getlio Vargas, apontava para um provvel alinhamento do Brasil com os pases 
do Pacto de Ao - Alemanha e Itlia. Em 1937 Vargas havia instalado no Pas uma ditadura, apoiada em uma Constituio centralizadora e autoritria, que guardava 
muitos pontos em comum com as ditaduras fascista. A prpria declarao de Vargas ao comentar a invaso da Polnia pelo exrcito nazista, em 1 de setembro de 1939, 
revelava certa simpatia pelo nazismo ao prever um futuro melhor: "Marchamos para um futuro diverso de tudo quanto conhecemos em matria de organizao econmica, 
poltica e social. Passou a poca dos liberalismos imprevidentes, das demagogias estreis, dos personalismos inteis e semeadores da
desordem".
Represso: esta era a ordem poltica no Brasil na poca da Segunda Guerra. O
Estado Novo, decretado em 10 de novembro de 1937, fechou o Congresso, imps a censura  imprensa, prendeu lderes polticos e sindicais e colocou interventores nos 
governo estaduais. Com um estilo populista, Getlio Vargas montou um poderoso esquema de propaganda pessoal ao criar o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), 
claramente inspirado no aparelho nazista de propaganda idealizado por Joseph Goebbels. A Hora do Brasil, introduzida nas rdios brasileiras e chamada ironicamente 
pela intelectualidade de "Fala Sozinho", mostrava os feitos do governo, escondendo a represso poltica praticada contra uma sociedade pouco organizada na poca. 
Vargas criou o salrio mnimo e instituiu a Consolidao das Leis do Trabalho (CLT), entre outros benefcios sociais, o que o levou a ser adamado como "pai dos pobres" 
pela populao de baixa renda.



Em 1940, um ano aps edodir na Europa, a guerra ainda no ameaava diretamente o Brasil. A ideologia nazista, contudo, fascinava os homens que operavam o Estado 
Novo a tal ponto que Francisco Campos, o autor da Constituio de 1937, chegou a propor  embaixada alem no Brasil a realizao de uma "exposio anticomintern", 
com a qual pretendia demonstrar a falncia do modelo poltico comunista. Mais tarde, o chefe da polcia (um rgo de atuao similar  da Polcia Federal de hoje), 
Filinto Muller, enviou policiais brasileiros para um "estgio" na Gestapo. Ges Monteiro, o chefe do Estado Maior do Exrcito, foi mais longe. Participou de manobras 
do exrcito alemo e ameaou romper com a Inglaterra quando os britnicos apreenderam o navio Siqueira Campos, que trazia ao Brasil armas compradas dos alemes.
Existem divergentes interpretaes sobre a postura de Vargas frente a ecloso da II Guerra. A viso tradicional, considera o presidente como um poltico habilidoso, 
que protelou o quanto pde a formalizao de uma posio diante do conflito, na medida em que poderia obter ganhos, do ponto de vista econmico, dos dois lados. 
O grande sonho do presidente era a industrializao do Brasil e, nesse sentido, pretendia obter recursos externos. Em 1940 o ministro Souza Costa publicou um Plano 
Quinquenal, que previa o reequipamento das ferrovias, a construo da Usina Hidreltrica de Paulo Afonso, a instalao de uma indstria aeronutica e a construo 
da Usina Siderrgica de Volta Redonda, reforando o nacionalismo econmico.
Outra viso considera a posio de Vargas frente a Guerra como expresso de uma contradio, na medida em que o pas dependia de forma mais acentuada da economia 
norte-americana e ao mesmo tempo possui uma estrutura poltica semelhante  dos pases do Eixo. A posio favorvel a Alemanha poderia comprometer o desenvolvimento 
econmico do pas, uma vez que os nazistas, apesar de avanarem na Europa, tinham na Amrica do Sul um interesse secundrio. Ao contrrio, a defesa dos interesses 
dos EUA, quer dizer, das "democracias" contra o nazi-fascismo, poderia comprometer a poltica interna de Vargas.
No entanto, as presses norte-americanas foram intensas, contaram com o apoio de outros pases latino-americanos e utilizou-se de diversos mecanismos, desde aquele 
que foi considerado o mais eficiente - a liberao de recursos para a construo da Usina de Volta Redonda - at um novo modelo de relao, batizado de "poltica 
de boa vizinhaa", pelo presidente F. Roosevelt dos EUA. Intelectuais brasileiros visitaram os EUA, e mesmo o general Gis Monteiro - germanfilo - ficou encantado 
em conhecer os estdios Disney.



Veja a opinio do tradicional historiador Hlio Silva:

A Amrica estava dividida e as posies pareciam irredutveis. "E quando o chanceler brasileiro [Oswaldo Aranha] se agiganta  estatura dos grandes estadistas do 
sculo. Ele consegue salvar a partida perdida, dando ganho aparentemente ao adversrio. Com uma lucidez absoluta, sente que a frmula inicial no poderia mais ser 
atingida com unanimidade. As presses dos pases do Eixo - que conhecia e repelira - atuavam na Conferncia. Mas, importante que era a ruptura imediata, (...) no 
era o princpio em causa, o principal. Este era a unidade continental, a solidariedade entre as naes americanas, a reao unnime  agresso. Porque, firmado esse 
princpio, tudo o mais seria atrado por ele. Oswaldo Aranha  a grande figura da III Reunio de Consulta. Sem ele, teria perecido, naquela ocasio, a unidade continental. 
(...) A Europa ocupada, a Inglaterra subjugada, a Rssia invadida, no .precisariam os Exrcitos nazistas atravessar os oceanos. As quintas-colunas se aprestariam 
em tomar conta dos govemos americanos. A Nova Ordem nazista teria, afinal, triunfado no mundo. (...) A Conferncia do Rio de Janeiro teve uma importncia decisiva 
nos destinos da humanidade. Pela primeira vez, em face de um caso concreto, positivo e definido, foi posta  prova a estrutura do pan-americanismo. Pela primeira 
vez todo um continente se dedarou unido para uma ao comum, em defesa de um ideal comum, a Liberdade".



Em 22 de agosto de 1942, Vargas rene-se com seu novo ministrio: " diante da comprovao de dos atos de guerra contra a nossa soberania, foi reconhecida a situao 
de beligerncia entre o Brasil e as naes agressoras - Alemanha e Itlia". Em 31 de agosto foi declarado o estado de guerra em todo o territrio nacional. 

Reflexos do golpe militar
Por Mariza Magalhes 

Quando o golpe militar aconteceu em 1964, algumas pessoas pensavam que aquela situao seria passageira. No entanto, ele veio com as mesmas caractersticas dos demais, 
ou seja, foi feito na calada da madrugada. Quando a populao acordou os militares j estavam no poder. Era necessrio que a populao se organizasse para retir-los 
do poder. 
A histria mostra que a direita sempre foi mais organizada do que  esquerda, por isso, quando os militares assumiram criaram os famosos Atos Institucionais, mais 
conhecidos como Ais. Com os Atos Institucionais chegaram tambm as perseguies e torturas. Foi a que os presos polticos sentiram o Ai literalmente, a dor. 
Todos os Ais afetaram a sociedade brasileira, porm o AI-5 foi mais desumano, deixando grandes seqelas, fsicas e psicolgicas na sociedade. 
O AI 5 foi instalado no Brasil, durante o governo de Arthur da Costa e Silva, publicado em 13/12/1968, que lhe concedia o direito de pr em recesso o Congresso Nacional, 
decretar interveno em Estados e municpios, suspender direitos polticos, proibir manifestaes sobre assuntos polticos, suspender a garantia do Habeas-corpus. 
Este ato deu a Costa e Silva e a seus sucessores, durante os dez anos de sua vigncia, poderes absolutos. A censura  imprensa tornou implacvel. 
Os assuntos cortados no eram substitudos por notcias incuas e sim por poemas picos. Tinham preferncia pelos Lusadas de Lus de Cames. Notcias de prises, 
torturas e desaparecimentos no podiam ser publicadas. 
Nas mos dos censores textos e imagens, movimentos eram proibidos por apresentar contedos - no entender dos burocratas a quem se delegara o poder de julgar  subversivo 
ou imoral. Alguns autores tornaram-se vtimas preferenciais. O compositor Chico Buarque de Holanda foi obrigado a criar um personagem, ao qual deu o nome de Julinho 
da Adelaide. Um mesmo samba, enviado a julgamento sob o nome de Chico Buarque era vetado, assinado por Julinho da Adelaide, passavam sem corte. 
A represso que calou vozes e tirou de cena liderana poltica e administrativa nascente, criou um vazio que tornou cinzento os anos seguintes - at os dias atuais 
estamos lutando para resgatar os valores perdidos como as organizaes estudantis, sindicatos e at a Igreja Catlica. 
Foi diante dessa situao que muitos estudantes, sindicalistas e religiosos optaram em lutar contra o governo militar, enfrentando o AI-5. Alguns foram presos, torturados 
fsica e psicologicamente, outros morreram dentro dos pores da ditadura. Alguns foram exilados, outros se auto-exilaram. Alguns preferiram viver na clandestinidade 
lutando para derrubar o regime militar instaurado em 1964. 
E  dentro desse contexto que vamos encontrar Marighella e os freis dominicanos. 


OS FREIS DOMINICANOS VOLTADOS S QUESTES SOCIAIS 

A dcada de 1960 foi marcada por movimentos sociais: sindical, popular, alfabetizao rural e urbana. A igreja catlica foi um dos espaos escolhidos para a mobilizao 
e reunio dos movimentos, os leigos estavam presentes nesta atuao e junto a eles os religiosos. 
No incio de 1960 realizaram mudanas significativas nas naes capitalistas e socialistas. E as ideologias estariam se estabelecendo e dominando naes, frgeis. 
No continente americano, com exceo de Cuba, todas as naes estavam unidas ao sistema poltico econmico capitalista, representado pelos Estados Unidos. 
Com medo que pases da Amrica Latina seguissem o exemplo cubano, os Estados Unidos fixaram diretrizes para gerir as relaes continentais, sentindo-se no direito 
de invadir e mandar ajuda militar aos pases que se sentiam ameaados por uma invaso comunista. 
No interior desse contexto os grupos polticos, sociais, econmicos e religiosos que faziam oposio  poltica norte americana voltam-se com mais ateno para os 
movimentos polticos, liderados por sujeitos mais comprometidos com as questes sociais. 
Se de um lado encontramos naes capitalistas preocupadas com as mudanas dentro do seu universo poltico, do outro vamos encontrar o mundo religioso tambm preocupado 
com o avano do comunismo e conseqentemente a perda de fiis. Preocupado com essas mudanas polticas o papa Joo XXIII convocou o Conclio Vaticano II. 
O mundo havia evoludo econmica, cultural, poltica e cientificamente. O papa sabia que a Igreja deveria acompanhar esse progresso, e manter suas portas abertas 
para esclarecer, atravs de palestras, documentos, discusses e reunies, os cristos e os leigos afastados do convvio religioso 
 dentro dessa conjuntura que encontramos alguns religiosos dominicanos preocupados com a situao social do Brasil. A preocupao desses religiosos estava voltada 
para as atuaes sociais. Eles se unem aos injustiados, que no precisavam s do po mas tambm da farinha e do trigo. 
Os jovens dominicanos acreditavam que viver o evangelho era integrar-se  comunidade atravs de prticas sociais, e para isso tornar-se necessria atuarem dentro 
da sociedade com participaes sociais, polticas e econmicas. Essa nova viso de evangelizar foi influenciada pelo Conclio Vaticano II. Esse grupo de dominicanos 
foi iluminado pelos ensinamentos filosficos e teolgicos da linha humanista francesa e tambm pelos discursos realizados dentro co Conclio Vaticano II. 
Esses jovens dominicanos tambm tiveram participaes em movimentos sociais como a Ao Catlica, a Ao Popular e tambm na Juventude Universitria Catlica. Aps 
o golpe militar de 1964 esses movimentos foram enxergados como laboratrios de idias comunistas, os seus participantes perseguidos pelo regime militar. 
Porm, os jovens dominicanos continuaram participando e atuando em movimentos sociais. Foram apoiados pelas mudanas sociais que a igreja catlica anunciava. Era 
a igreja dos pobres, a igreja dos excludos. A populao carente encontrou nessa igreja a sua voz. A igreja preocupada com as questes sociais, a igreja progressista, 
no agrada aqueles que estavam apoiando o regime militar. 
No eram s os dominicanos que apoiavam os necessitados, D. Helder Cmara tambm os amparava. D. Helder dizia que  quando dou po aos pobres, chamam-me de santo, 
quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista. 

QUEM FOI MARIGHELLA 

Marighella nasceu em Salvador  na Bahia  em 5 de dezembro de 1911. Em 1932 ingressou na Juventude Comunista, em 1937 j participava do PCB, foi preso trs vezes 
e entrou na clandestinidade sempre que os parlamentares comunistas foram cassados. 
Em 1967 rompe com o PCB e funda a Ao Libertadora Nacional  ALN  e d incio a luta armada contra a ditadura militar. 
Setembro de 1969 ALN e MR-8 seqestram o embaixador norte americano  Charles Elbrick, que  trocado por 15 presos polticos. 4 de novembro do mesmo ano Marighella 
 assassinado na Alameda Casa Branca, em So Paulo pelo delegado Srgio Paranhos Fleury. 

UNIO MARIGHELLA E DOMINICANOS 

A opo dos dominicanos pela ALN foi feita pelo frei Oswaldo Resende, em fevereiro de 1968 que convidou os demais para participarem da organizao. 
Unir-se a Marighella era um desejo de colocar em prtica todo o conhecimento que obtiveram das aulas tericas, apresentadas por Congar, Chenu, Cardonnel e frei Carlos 
Josaphat. 
Foi essa simbiose que aproximou os dominicanos de uma organizao de esquerda. Essas idias deveriam ser propagadas em espao protegido, que no chamasse a ateno 
de grupos institucionalizados e que tivesse a participao do povo. 
Por pensarem diferente, os freis so vistos como sujeitos perigosos . A perseguio aos freis dominicanos conjugados aos ideais da Ao Libertadora Nacional, tinha 
por objetivo desmoralizar a igreja catlica progressista e aprisionar Marighella. 
A desmoralizao foi apresentada  sociedade civil como sendo os dominicanos progressistas comunistas, um mal que deveria ser extirpado da sociedade religiosa e 
civil, prender Marighella era a satisfao do dever cumprido. 
Em 2/11/1969, os freis Fernando e Yvo so presos no Rio de Janeiro, em uma ao conjunta com as polcias do Rio de Janeiro (CENIMAR) e So Paulo (DOPS). 
Quando os freis foram presos, alguns policiais invadiram suas casas e se apropriaram de objetos que comprometiam a vida deles. O primeiro objeto procurado foram 
as cadernetas de anotaes. Atravs delas os policiais chegavam a outras pessoas ligadas direta ou indiretamente na rede da ALN. 
Aps a priso, os freis ficaram incomunicveis. A ordem dominicana no podia se manifestar, as informaes eram transmitidas pelos rgos oficiais do governo. A 
incomunicabilidade foi rompida em 21 de novembro de 1969. 
Carlos Marighella foi assassinado na alameda Casa Branca n 800, no dia 4 de novembro de 1969. No momento do assassinato um clssico estava acontecendo no Pacaembu; 
Santos x Corinthians. No 2  tempo de jogo os altos falantes do estdio anunciam a morte do lder comunista. Os policiais denunciam os dominicanos como delatores, 
era uma maneira de colocarem os religiosos contra a sociedade. Hoje a histria mostra que os freis foram barbaramente torturados para denunciarem Marighella. 




So Paulo, 1917: A Primeira grande greve brasileira

"So Paulo  uma cidade morta: sua populao est alarmada, os rostos denotam apreenso e pnico, porque tudo est fechado, sem o menor movimento. Pelas ruas, afora 
alguns transeuntes apressados, s circulavam veculos militares, requisitados pela Cia. Antrtica e demais indstrias, com tropas armadas de fuzis e metralhadoras.
H ordem de atirar para quem fique parado na rua. Nos bairros fabris do Brs, Moca, Barra Funda, Lapa, sucederam-se tiroteios com grupos de populares; em certas 
ruas j comearam fazer barricadas com pedras, madeiras velhas, carroas viradas e a polcia no se atreve a passar por l, porque dos telhados e cantos partem tiros 
certeiros. Os jornais saem cheios de notcias sem comentrios quase, mas o que se sabe  sumamente grave, prenunciando dramticos acontecimentos."
Dias, Everardo.
"Histria das Lutas Sociais no Brasil".
Apud Bandeira, M. et alia, op. cit., pp. 56-57.

O texto acima, descrito polo operrio e historiador Everardo Dias, caracteriza o cotidiano da cidade de So Paulo em julho de 1917, marcada pela greve geral que 
paralisou completamente a capital paulista, explicitando o choque entre o operariado - liderado principalmente pelo movimento anarquista - e o Estado oligrquico 
- atravs de um forte aparato repressivo.
A fundao da Confederao Operaria Brasileira (COB) em 1906, por iniciativa de sindicatos do Rio de Janeiro, So Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul e Pernambuco foi 
um dos mais importantes marcos no processo de mobilizao do operariado brasileiro. Na esfera ideolgica, desde 1892, verificava-se a presena de princpios socialistas 
entre elementos da incipiente classe operria, que at a dcada de 1920 era mais influenciado pela ideologia anarquista e anarco-sindicalista, inspirada nas doutrinas 
dos russos Bakunin e Kropotkin e no francs Proudhon.
Para o anarquismo, o operariado deve ter como objetivo final a implantao de uma sociedade igualitria, antecedida da destruio do Estado capitalista. O anarquismo, 
contrrio a toda forma de governo, entende o Estado e a poltica como invenes burguesas, negando qualquer forma de poder institucionalizado.
A afirmao do socialismo em substituio ao anarquismo no Brasil, ocorre principalmente depois dos anos de 1917-18, quando um grande movimento grevista agita inicialmente 
o eixo So Paulo-Rio para logo depois afetar os principais centros industriais do pas.
A primeiro grande movimento grevista da histria sindical no Brasil que paralisou a cidade de So Paulo em 1917, iniciou-se com greves localizadas em fbricas txteis, 
ainda no ms de junho nos bairros da Moca e do Ipiranga. Os lderes grevistas reivindicavam melhores salrios e melhores condies de trabalho, alm da exigncia 
de supresso da contribuio "pr-ptria" (campanha de apoio financeiro  Itlia, desenvolvida pela burguesia imigrante de So Paulo, chegando at a fazer descontos 
dos salrios dos trabalhadores, como foi o caso do Cortonifcio Crespi). As manifestaes de rua foram duramente reprimidas pela polcia, culminando com o assassinato 
do sapateiro anarquista Antonio Martnez. Durante um ms a cidade de So Paulo viveu a agitao dos comits de greves, que apesar de mostrar uma considervel capacidade 
de mobilizao do operariado, no serviram para sensibilizar o Estado.
Ao longo de toda Repblica Velha (1889-1930) os governos oligrquicos tratavam a questo social como "caso de polcia", preferindo assim, adotar medidas arbitrrias, 
como espancamento e priso das lideranas grevistas e expulso dos estrangeiros do pas.
Apesar da forte represso, o movimento grevista liderado pelo sindicalismo de inspirao anarquista e com a participao macia de imigrantes italianos e espanhis, 
estendeu-se praticamente at 1919 para vrias regies do territrio brasileiro.
Se por um lado as greves no alcanaram seus objetivos mais imediatos, certamente contriburam para promover debates no meio operrio sobre os rumos do movimento 
sindical.
Colocando em crise a ideologia anarquista, as greves de 1917 foram decisivas para o crescente avano dos ideais socialistas, e para formao do Centro Comunista 
do Rio de Janeiro em 1921, que antecedeu a fundao do Partido Comunista Brasileiro no ano seguinte.
No cenrio internacional, a transio do anarquismo para o socialismo  consolidada sobretudo, aps a vitoriosa Revoluo Bolchevista na Rssia, que inaugurou o 
primeiro Estado socialista da Histria sob o comando de Lnin. O lder revolucionrio assumia o poder em novembro de 1917, aps comandar, no exlio, a corrente bolchevista 
dos socialistas russos.  nesse contexto que cresce a influncia da doutrina socialista no meio operrio, contribuindo para uma ampla difuso do marxismo pelo mundo, 
at o final dos anos 80 que assinalam a crise do socialismo stalinista.
